bicicletas, carros, assédio

era pra eu agora fazer um posto sobre a bauhaus e a construção das bicicletas. ainda o farei, mas dei de cara com esse post da marina no blog das pedalinas e claro, a pauta muda.

é interessante o assédio de motoristas sobre mulheres ciclistas. muitas das minhas amigas reclamam. assédio às vezes agressivo como o sofrido pela marina no post citado acima. é uma reprodução no transporte do assédio agressivo que mulheres sofrem desde a pré-história.

a relação sempre foi conflituosa, e não podemos esquecer que o estupro tem sido usado inclusive como arma de guerra. mas não vou me alongar sobre esse aspecto para não cair na superficialidade, há estudos muito mais profundos disponíveis do que as minhas elocubrações neste blog.

quero focar o assédio masculino de motoristas sobre  mulheres ciclistas e em menor grau o assédio feminino de mulheres sobre homens ciclistas. esse também existe, em muito menor grau, mas também com risco de morte, com qq ato que possa desequilibrar o ciclista.

a marina cita o tapa levado de um garotão dentro de um carro. lendo o texto me veio à cabeça o tapa na bunda que levei de uma aluna uma certa vez e também uma outra situação, aparentemente não agressiva, mas que me colocou em risco certa vez:

estava eu pedalando cantareira acima, o trecho final com inclinações altíssimas, pedalando em pé, e sinto um carro me acompanhando, muito de perto, atrás. a via não dava espaço para eu ir mais à direita, pois havia um paredão. não tinha como tirar a mão do guidão pra fazer um sinal pro carro me passar sem perder o equilíbrio. a situação do carro quase encostando na minha roda traseira se manteve por uns bons 10 minutos, e eu vendo que o/a motorista não tinha o bom senso de sair mais para a esquerda e me passar, gritei:

– passa, porra!

e daí o carro saiu para a esquerda e a má-torista me passa lentamente gritando:

– calma, gato, eu só tava admirando!

e acelerou dando tchauzinho.

o que ela fez foi nada menos do que reproduzir um comportamento masculino típico, cada vez menos presente na periferia e mais manifesto nas regiões de classe média. faço questão de descrever a minha situação da cantareira para que os leitores homens desse blog entendam o que passa o/a ciclista durante o assédio, e calculem que as  mulheres passam infinitamente mais situações de perigo e humilhação no trânsito.

o interessante é que nos bairros violentos isso raramente ocorre. e, quando ocorre, é comum que saiam aquelas notícias sobre chacina. conheço uma moradora do jardim ângela que sempre falava para os filhos nunca mexerem com mulher na rua pois poderia ser alguém ligada a algum traficante, algum bandido violento. recentemente ouvi de um policial (um casal de amigos, tinho e taíza, tavam junto e ouviram a mesma história) um relato de uma dessas situações onde os rapazes estão num boteco, pára um carro em frente e dispara tiros, ferindo e matando muitos. dito e feito, o alvo principal do tiroteio tinha mexido com uma menina na rua horas antes.  é conhecida a regra de presídios onde, nos dias de visita, quando passa uma mulher, os demais presos abaixam a cabeça. é o respeito pelo temor, não respeito por si só.

a questão do desejo é complexa, e atinente mais aos estudos dos psicólogos. mas desde os estudos de freud sabemos que o desejo perspassa diversas relações humanas. homens e mulheres manifestem o desejo sobre o outro, seja assobiando, seja sorrindo, seja correndo para a frente da TV para ver aquele artista que “é um colírio para os olhos”. a histeria das adolescentes diante do ídolo é manifestação de desejo.

uma armadilha comum é culpar o objeto do desejo pelo efeito que causa. são frases do tipo: “também, ela tinha que andar de mini-saia?”, “também, ela tinha que pedalar com aquela bermudinha justinha?”. pois é, esse é exatamente o mesmo argumento que os pedófilos usam: a criança estaria provocando-o.  aceitar essa hipótese implica em usarmos então um remédio para evitar isso: que usemos todos a burqa sufocante, pois o problema não estaria no olhar, mas no ser objeto do olhar.

não, existe uma indústria em torno do desejo. como a marina ressaltou, basta fazer uma pesquisa no google imagens pra se perceber isso. existe o outro lado dessa indústria que é a economia em torno do “provocar o desejo”, economia essa que vai da indústria da moda à produção de silicone para as próteses (antes apenas mamárias, mas agora também nas nádegas e até nas panturrilhas!).

a indústria do desejo transforma-o em motor da atividade econômica. usa-o até pra vender carros. o “sentir-se poderoso ” é afrodisíaco, muitos repetem que nada mais afrodisíaco que o poder. ou mesmo a notoriedade (que não se confunde com a fama, mas essa também), pois como explicar as cartas apaixonadas que o maníaco do parque recebe?

a indústria automobilística trabalha bem sua publicidade enfocando esse aspecto (me pergunto às vezes o que será dos publicitários no juízo final), ressaltando a sensação de poder de quem está no carro. o SUV é o carro moldado para isso. que não se venha com a desculpa de que é um utilitário. utilitário é o toyota bandeirante, braulhento, lento, desconfortável. não consigo imaginar alguém carregando mourões num tucson.

o carro dá sensação de poder, de inexpugnabilidade, de segurança. seu motorista se sente acima de todos. há publicidades que ressaltam isso. vendem o carro para dar a sensação ao comprador que ele está acima de tudo, inclusive acima das regras de convivência social.  o motorista está acima das condições limitativas da natureza (enchentes, por exemplo), fica mais bonito, fica poderoso.  ora, quem é poderoso é quem tudo pode…. pode dar tapa na bunda de ciclista, buzinar pra sair da frente, gritar na orelha alguma besteira (coisa que pode derrubar e matar um ciclista). em resumo, pode transforma o outro não mais numa pessoa, mas numa coisa.

esse processo de coisificação do ser humano já nos levou ao mais infame dos crimes: o holocausto. judeus foram coisificados: obturações de ouro arrancadas, cabelos raspados para que se produzisse feltro para forrar a bota dos soldados no front russo no inverno, e mesmo a pele dos cadáveres das câmaras de gás sendo queimada em candeeiros.

então, me é revelador que o idiota que agrediu a marina a tenha chamado de “coisa gostosa”. “coisa”. quando o outro é coisa, isso significa que deixou de ser pessoa. deixa de ser sujeito para ser objeto.

a coisificação do outro é manifesta no trânsito em são paulo. mas não só aqui. não é de se estranhar a violência. as brigas no trânsito. e o ciclista, sempre a parte mais fraca, cada vez menos engole sapos calado. a reação automática diante da agressão é cada vez mais comum. já tivemos aqui em são paulo reação de ciclista agredido que usou a u-lock para atingir o carro agressor. em brasília um carro arrastou um ciclista mas foi parado (felizmente sem danos para o ciclista).

a nazificação do trânsito tem levado a reações extremadas. a nazificação é cada vez mais evidente, com a negação do direito do mais fraco ao seu deslocamento em paz.  essa nazificação não se resume à postura dos motoristas, mas estende-se à estrutura, é estrutural. ela baliza o trânsito a partir do ponto de vista de um cidadão ideal, atlético,no auge da sua forma (o ideal ariano dos nazistas?), e tudo o que desvia desse padrão é… atrapalhação. o pedestre ou corre ou é atropelado. o motociclista não pode  deslocar-se por vias  rápidas onde não há pedestres, mas seu trajeto é deslocado para um local onde há muitos pedestres, como fez a prefeitura de são paulo, tirando as motos da av. 23 de maio e deslocando-as para a rua vergueiro.

a priorização do carro gera portanto uma divisão: motoristas X outros.  o outro, caminhão, moto, pedestre, ciclista, ônibus, atrapalha, deve ser retirado ou não priorizado, é coisificado, está disponível. quando não agrada, passa-se por cima, quando agrada, é tapa na bunda.

a questão vai além do assédio sexual no trânsito. vai muito além. a coisificação do outro é uma das origens do totalitarismo. e totalitarismo e nazificação são algo que, infelizmente, tem aparecido muito na sociedade brasileira ultimamente, especialmente na última campanha presidencial, onde um conservadorismo de base totalitária se fez, infelizmente, presente.

(pra quem ainda não percebeu, há links nos itens grifados).

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2 Respostas para “bicicletas, carros, assédio

  1. Ah, poisé. Infelizmente tá cheio destes nojentos pelas nossas ruas. dia destes quase fui derrubado por um palhaço na garupa de uma motocicleta, que se aproximou com as luzes apagadas (era noite) e em ponto morto, para me dar um tapa na bunda… É chato, pois você se sente humilhado, exatamente como você colocou no ótimo texto. Mas, quando elegermos o cara da barra de ferro, a coisa vai mudar!!! 🙂

    Abr

  2. blog muito bom, post excelente!

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