a perna e a bicicleta

e então vc ficou pra trás naquele pedal com os amigos. claro, o problema foi a bike. fazer o quê, sua bike é mais simples, uma speedzinha equipada com sora, seus amigos usam ultegra e dura ace, e vc ficou para trás. e então vc passa o ano inteiro montando e desmontando a bicicleta: câmbios, freios, rodas, quadro, tudo. tá tudo sempre meio desmontado, vc não consegue sair pra pedalar, pq sua bike fica montada uma semana, e vc desmonta tudo e monta de novo com peças novas e vai gastando uma grana…. e o pior, quando pedala de novo, fica para trás de novo.

meu amigo, seu problema não é a bicicleta. deixe sua insegurança separada do seu fetiche pelas mercadorias. não adianta, mesmo que vc use uma bicicleta de 30 mil reais, vc continuará ficando para trás pois vc não pedala. simples assim, vc está fora de forma. lembre que melhor que tirar um kg de peso da bike, é melhor tirar 1 kg de peso da pança. faça a conta: se sua bike de estrada que pesa muito pois não é top, e mesmo assim pesa menos que 12% do seu peso corporal, seu problema de desempenho pode ser sobrepeso e falta de treino. pq o problema não é o peso em si, é a forma física, o sedentarismo. há gorduchos pedalando muito,  e magrelos que não pedalam nada.

muita gente transfere suas próprias inseguranças para um certo fetichismo. e a publicidade se aproveita disso para vender coisas, coisas que muita vezes não precisamos e para solucionar problemas que não temos. e assim compramos coisas inadequadas, desnecessárias. no mundo das bicicletas, há quem ache que só conseguirá pedalar direito se tiver a bike do lance armstrong ou do cancellara, ou do cavendish. mas não, o diferencial é perna, sempre será a perna. com certeza o cavendish, mesmo num velotrol, sprinta melhor que eu na bicicleta dele.

os grupos de peças de bicicletas de estrada, dos grupos mais básicos, já possuem qualidade suficiente para andar muito bem. há quem apareça em competições amadoras aqui no brasil é lá fora usando peças dos grupos 2200 ou sora, dos dois mais básicos da shimano. e andando bem. as peças precisam estar bem reguladas, bem lubrificadas, e basta isso para funcionarem adequadamente. há diferença de desempenho para os grupos top? há, mas ela será sensível apenas para quem está num certo nível de pedal muito alto, e mesmo assim quando estiver usando a bicicleta no seu extremo. pra exemplificar: nem o lance armstrong precisa de uma bike toda dura ace di – o grupo eletrônico – para se divertir numa estradinha num final de semana. há quem tenha dado a volta ao mundo com mountain-bikes com 18 ou 21 marchas, número de marchas que hoje faz o mountainbiker mediano torcer o nariz.

a não ser que vc seja um atleta de ponta, pode se dar muito bem com os grupos mais básicos da shimano, da sram ou da campagnolo, na sua bike de estrada. a vantagem é que vc poderá fazer besteiras tranquilamente sem gastar fortunas. uma troca de marchas errada com a força no pedal errada pode arrancar e estragar o câmbio traseiro. e aí, o que prefere estragar? um câmbio de 60 reais ou um câmbio de 600 reais? (será que o câmbio dez vezes mais caro é 10 vezes melhor?) e o que adianta vc ter uma única bike muito cara, toda top se cada vez que há uma garôa vc não pedala, e para usá-la vc precisa agir como se tivesse um pequeno barco, amarrando a bicicleta a um carro e levando-a até o local de pedalar?

 

baron outsider disc

 

não é heresia ter um pedivela triplo ou compacto na sua speed, ou pára-lamas para os dias de chuva (heresia é fazer com que o habitat natural daquela bike de 15 mil reais seja o rolo de treinamento). assim vc terá relações leves o suficiente para aguentar horas de pedal, e não ficará desesperado com nuvens escuras no céu. não há mágica, o que faz vc manter 35 kms de média durante 3 horas na estrada é treino. e treino só se faz pedalando. e pra sair pedalando vc precisa perder o medo de pedalar por aí. e para perder o medo de pedalar por aí vc precisa ter uma bike que tenha coragem de usar.

ciclistas experientes sempre têm um respeito danado por quem pedala muito com bikes simples. por outro lado, posers e wannabes em geral são sempre mal vistos, em qualquer meio, e não é diferente no meio ciclístico.

portanto, guarde a graninha do grupo campagnolo super  record para quando suas pernas estiverem à altura dele.  até lá, vá pedalando. senão, vc será apenas mais um dos fornecedores dos felizes garimpadores de peças. pra quem gosta de garimpar peças boas, nada melhor que um wannabe inseguro que rifa um grupo dura ace 7800 a preço de banana e praticamente sem uso pois está desesperado para comprar o dura ace 7900. bikes de posers e wannabes são ótimas bikes de armário: ficam guardadas durante muito tempo e depois são rifadas a preços baixos.

por outro lado, deixar de ser wannabe é fácil: basta sair pedalando, cada vez mais. não custa nada, a bike vc já tem.

vá pedalar. tenha uma bike mais simples para ir ao trabalho ou à escola pedalando. vá fazer compras usando uma bicicleta. vá ao cinema ou jantar fora de bicicleta. tenha várias bikes simples, uma para cada uso. assim vc estará mais apto para depois curtir aquela sua bicicleta cara. deixe as desculpas de lado, e vá pedalar. essa é umas poucas coisas da vida que para fazer basta querer. deixe as desculpas de lado, quem quer pedala.

 

juan josé mendez, seleção espanhola. para-olimpíadas 2008 - pequim, prova de pista.

 

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Uma resposta para “a perna e a bicicleta

  1. Uma vez mais vc tem toda razão. Eu mesmo me incluía nesse grupo que gasta dinheiro e nada faz. Agora tô mudando muitas das minhas rotinas e de fato usando a bike para trabalhar, fazer compras, passear ou simplesmente treinar. Belo post!

    Aliás, daria um post esse lance de pedalar enquanto se troca uma marcha, para não quebrar o câmbio. Eu mesmo fiquei curioso para saber mais, descobri que não sei trocar marchas direito, às vezes mudo a marcha e ela não engata, por mais que eu pedale mais rápido ou mais devagar.

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