cromoly, rei do conforto?

ao ler esse texto, leve em conta que sou um defensor do uso do aço cromo-molibdênio na feitura de quadros e garfos de bicicleta. portanto, leve em conta minhas opiniões cum grano sallis.

surly long haul trucker. aço 4130. 46 cms de chain stays.

durante décadas só se fazia bicicletas de aço. ou aço carbono, ou melhor ainda, aço cromo-molibdênio, liga 4130. eis que chegaram ao mercado as bicicletas de alumínio (primeiro liga 6061, depois 7005). depois as bicicletas de compostos plásticos, basicamente fibra de carbono e resinas plásticas.

o senso comum tem feito muita gente achar que o aço cromo-molibdênio, por si só, é o material ideal para bicicletas confortáveis. mas pq isto? via de regra, o ciclista andou numa dura bicicleta de alumínio com geometria mais moderna e agressiva, e um dia andou numa bicicleta em aço cromo-molibdênio, mais antiga, e achou-a muito mais confortável. conforto, aliás, comparável ao daquela bicicleta cara em fibra de carbono que o amigo apenas lhe deixou dar uma voltinha…. depois, mais algumas pesquisas no google, algumas visitas em páginas de fabricantes de bicicletas de cicloturismo (quase todas em aço cromo-molibdênio) e voilà! o mito está introjetado na cabeça do mais novo fã do aço cromo-molibênio, o cromoly, chromoly, cr-mo, ou tantos outros nomes que se dá à liga 4130.

mas para que se possa efetivamente entender por qual motivo o aço cromo-molibdênio é rei quando se fala em bicicletas de cicloturismo, é preciso desfazer algums mitos.

1. o material do quadro, por si só, não determina seu conforto. a geometria é muito mais determinante.

realmente,  um quadro com chain stays de 46 centímetros será muito mais confortável que um quadro com 38 cms. os chain stays são aqueles tubos que prendem a roda traseira, acompanhando a corrente, saindo quase que na horizontal da caixa do pedivela em direção ao eixo da roda. é fácil de entender. quando andamos num ônibus, os solavancos são maiores onde? quando estamos lá no fundo do ônibus, em cima das rodas traseiras ou até atrás delas, ou no meio do ônibus? claro que no meio. chain stays longos fazem com que nos sentemos mais longe do eixo da roda traseira.

se usarmos uma bicicleta de alumínio, com chain stays longos, teremos mais conforto do que numa bicicleta em aço 4130 com chain stays curtos. quem já andou numa KHS aero turbo entendo do que eu falo.

2. o tamanho total das rodas e o tamanho do pneu também são mais determinantes que o material do quadro para estabelecer o conforto.

este é outro fato. rodas maiores passam melhor por buracos. mas normalmente o ciclista pensa apenas no diâmetro dos aros, e não no diâmetro total das rodas. o que ajuda no conforto, de sobremaneira, são os pneus. pneus largos são mais confortáveis. se compararmos uma bicicleta com rodas aro 26, mas com pneus de duas polegadas, e a mesma bicicleta com rodas aro 700c, mas com pneus de 23mms, entenderemos. nessas configurações, essas duas rodas tem o mesmo diâmetro. mas os pneus de 2 polegadas dão mais conforto.

3. o cromo-molibênio pode ser mais facilmente consertado em caso de ruptura.

isso é fato. a tecnologia do aço está disseminada. assim, onde houver uma máquina de solda alguém conseguirá soldar uma rachadura num quadro de cromo-molibdênio. o mesmo não acontecem com o alumínio, que exige oficinas especializadas. e muito menos com a fibra de carbono, que tem menos de meia dúzia de bons reparadores no brasil….

não há plasticidade de formas igual à permitida pela fibra de carbono. os quadros modernos de competição têm, nos últimos anos, assumido formas simplesmente impensáveis há poucas décadas. não vejo que outro material possa ameaçar seu reinado no mundo das bicicletas de competição. mas a fibra de carbono tem seus problemas relacionados a acidentes, a usos impróprios, e é de difícil reparação, portanto  essas características afastam o cicloturista, que prefere uma bicicleta muito mais confiável e resistente.

o alumínio, além da dureza que os tratamentos térmicos lhe dão e da dificuldade de conserto em qualquer esquina também é mais difícil de se trabalhar em pequenos detalhes que muito agradam os cicloturistas, como olhais para bagageiros, pára-lamas, porta-raios de reserva, encaixes para bombas de ar e etc. por um processo chamado brazagem, todos esses itens podem ser soldados aos tubos de aço 4130.

essas facilidades fazem com que haja muito mais fabricantes artesanais de quadros em aço 4130 do que de outros materiais, como o titânio. é mais fácil conseguir um quadro sob medida de um framebuilder se for em cromo-molibdênio.

mas nem tudo é vantagem. quadros com traseiras longas possuem o problema da torção mais pronunciada. não é à toa que quadros mais modernos possuem traseiras, chain stays, bem curtos. torcendo menos, há menor perda de força nas subidas, nos sprints. então, talvez praquela bicicleta de traseiras longas, seja preciso pensar em marchas mais curtas…

o aço não possui também  a plasticidade de formas da fibra de carbono. isso limita a variação de formas, o que implica também em menor aerodinâmica.

então, quando se discute qual omaterial melhor, temos que levar em conta uma segunda pergunta: para quê? cada material tem seu uso.

e se você apenas quer um pouco mais de conforto ali naquela parte do corpo que vai sobre o selim, mude o selim para algo mais confortável. nada como um brooks em couro, com molas. muito mais leve do que um sistema de amortecimento traseiro, muito mais barato que trocar de quadro. e em cerca de 6 meses será personalíssimo, assumido a forma de suas partes baixas…

selim brooks flyer. quer um? procure na net o mocó do canna. lá tem.

Anúncios

14 Respostas para “cromoly, rei do conforto?

  1. Existe mais de um tipo de bicicleta de aço, ou todas as de aço são de aço cromo-molibdênio? E afinal de contas, porque a bicicleta de aço cromo-molibdênio fica mais confortável?

    Acho que ficou alguma coisa invertida nesse pedaço:

    “quando andamos num ônibus, os solavancos são maiores onde? quando estamos lá no fundo do ônibus, em cima das rodas traseiras ou até atrás delas, ou no meio do ônibus? claro que no meio. “

    • valdson, todo aço, é aço alguma coisa. omais comum no brasil é aço carbono, muito utilizado nas bicicletas de supermercado. é pesado e mole, não é bem adequado à produção de quadros de bicicleta.
      no trecho citado, quis dizer que sofremos menos solavancos no meio do ônibus, e não na traseira do ônibus.

    • Pra complementar, a estrutura granular do aço (assim como do titânio e ferro fundido) permite que as vibrações se dissipem por todo o material, no caso do alumínio essa dissipação é menor ficando alguns pontos com mais tensões, que estarão mais sujeitos a quebrarem por fadiga (muitos e muitos usos) , essa característica dá mais conforto e durabilidade…
      Perceba que o titânio também é assim, mas se por acaso ele quebre, onde você vai encontrar alguém que solde?

  2. O…, viu porque há quadros de ciclotur em titânio, porque também são resistentes à fadiga, podem durar um século.
    Acho que o que vc falou sobre chain stays longos também se aplica com garfos com rakes ( http://davesbikeblog.blogspot.com/2007/05/trail-fork-rake-and-little-bit-of.html ) longos no quesito de a estrutura amortecer impactos, além de aumentar a estabilidade em retas (mas em contrapartida ciminui um pouco a agilidade em curvas agudas)
    abraços, a gente se vemos na pizzada aqui

    • o problema do titânio, juliano, é que se rachar, solda onde?
      nenhum material é à prova de rachaduras. e bike de cicloturismo pode estar carregando o ciclista e até mais 50 kg de peso… não é à toa que chegam a pesar 2,5 kg só o quadro de uma touring.

  3. Qual a melhor liga de aço-cromoly, para fabricação de quadros tamanho 52 cm no tubo horizontal? Qual o melhor modelo da marca Columbus, para a fabricação desse mesmo quadro, temdo como referência o melhor conforto e leveza do quadro e garfo? Brigado

    • marcos, eu não sou um especialista em aço. o ideal seria conversar com alguém que fabrica quadros, e eu não faço isso, sou só um divulgador de conhecimento.
      a columbus tem hoje alguns sets, que vc pode encontrar nesse link:
      http://www.columbustubi.com/eng/4_4.htm – sendo que há diferenças entre sets pra serem soldados com solda tig e os que serão cachimbados.
      mas o que pode determinar de sobremaneira o conforto, dentre as variantes do cromo-molibdênio, não é a liga específica, mas o tamanho dos chain stays: quanto mais longos, mais confortáveis. por isso é quase padrão entre bicicletas de cicloturismo que se tenha 46 centímetros aí, embora bikes de competição tenham cerca de 40,5, ou mesmo 38 cms, no caso da khs aero turbo. lembre que a geometria é mais determinante para o conforto que o material. um quadro de alumínio com 46 cms de chain stay é mais confortável que um de cromo com 38 cms.

  4. olha só, o cara do backpacking ultraleve não é tão ultra-leve assim, hehehe…
    brincadeira, ogum777! 😀

    a metalurgia de outras ligas é bastante conhecida há MUITO tempo, e compósitos são muito mais antigos do que se imagina…
    me lembro que nos anos 90 alguns tubos de aço columbus disputavam a preferência dos ciclistas com o titânio e outros materiais… o titânio era o único que mostrava vantagens palpáveis ao aço (reforço: isso era nos anos 90!)
    se o aço ficou tanto tempo “no topo” foi pelas suas qualidades… muito do que se vende hoje é marketagem pura.

    hoje eu prefiro quadros de alumínio pra MTB, mas tenho um respeito enorme pelo aço.

    tubos de aço pro cicloturismo tem uma outra grande vantagem: são fáceis de soldar… qualquer boteco tem uma máquina de solda elétrica, pra emergências.

    grande abraço,

    samuel_gouvea (do mochileiros.com TB 😀 )

    • hahá, não sou radical. não economizo no peso a ponto de perder a confiabilidade. alumínio tem o tradicional problema da fadiga, por isso nas tourings “de verdade” não é usado… e claro, a abosorção de ondas do aço é melhor.

  5. ogum, dentre várias bikes que tive, uma das mais confortáveis (mesmo com um quadro muito grande – algo como 22.5″ pra alguém com 1,82m) foi uma Touring, aqui comumente chamada de híbrida, modelo “Giant Custon”, provavelmente produzida no inicio dos anos 90, além do quadro e garfo em cromoly, também tinha rodas 700c, e jeitão de MTB (seria ela uma percursora das atuais 29er?), e mesmo com o tamanho desproporcional do quadro, ela tinha um conforto que nenhum quadrinho de aluminio me passou até agora.

  6. Interessante que não li em seu texto qualquer menção a corrosão e enferrujamento. Quadros de ao enferrujam que é uma desgraça. Qualquer risquinho na pintura faz estrago.

    • pois o texto era sobre conforto. o melhor material, do ponto de vista de corrosão, é titânio. mas o aço 4130 é bem mais resistente à corrosão do que os quadros de aço carbono vendidos por aí a preço baixo. e também depende muito da região onde as pessoas circulam. quem circula na orla praieira tem que tomar cuidado com tudo. pois até alum´pinio sofre algo de corrosão.

  7. a cada leitura que faço do assunto em crmo,me fica uma duvida. tenho hoje 59 anos e usu bike desde os 14 anos mas só vim puxar um pedal como semiprofissional aos 38 anos e possui uma speed com quadro cromo aos 40 mas nao sabia de toda sua literatura e raridade.
    hoje pretendo montar uma bike e iniciar o cicloturismo, e a dúvida aumenta a cada hora e leitura que faço se acentua. moro distante dos centro urbanos aonde a incidencia e probabilidade de se encontra uma speed num ferro velho ou oficia é zero. já li também que o quadro em cromo, a aparência se aproxima à chumbo.alguém pode me confirmar isso, e afirmar que um quadro crmo com chain stays 46 seria o ideal para montar uma estradeira e comrçar uma viam com primeira etapa em torno dos 3500 km?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s