bikes, trens e bois

antiga estação hoje demolida, no seu lugar uma praça

tenho uma amiga de fora de sp que é urbanista. está aqui há algum tempo, mas está começando a digerir a cidade. urbanistas dizem e quem pedala sabe: nada melhor do que uma bicicleta pra conhecer uma cidade.

ontem de madrugada, saindo de uma vernissage, perguntei à ju se queria ver o triângulo histórico do centro de são paulo, cujos vértices são 3 igrejas: igreja do carmo, igreja de são bento, igreja de são francisco. estávamos ali na frente da igreja de são gonçalo, atrás da igreja da sé. quem passa de carro não vê a igreja de são gonçalo, quem passa de bike vê.

em meia horinha fizemos o circuito. ruas vazias, então deu pra ela parar, descer da bike e verificar o caminho das águas na são paulo colonial. pouca gente sabe que o rio tamanduateí teve seu curso alterado: passava por onde hoje é a rua 25 de março. por isso aquela viela que liga a rua da boa vista (pq dali se tinha uma boa vista), à rua 25 de março, chama-se ladeira do porto geral. ali havia mesmo um porto. e da igreja de são bento, a rua são bento vai reta até o largo de são francisco. retinha… pouca gente vê a igreja de santo antônio no largo do patriarca. chegamos logo ao largo de são franciso (o lugar mais lindo de sp para mim, por razões pessoais), e logo ela subiu pra liberdade.

voltei pra casa aqui nos confins da zona norte. no caminho pensava nos caminhos de são paulo.  faço um caminho relativamente suave, por ruas curvas, cruzando pela parte alta de santana. esse caminho há tempos me intrigava, e hoje descobri sua origem. discutindo rotas com o pásqua, caminhos dos trens da cantareira, acabei conversando com os moradores antigos aqui do bairro e com informações certas consegui localizar o caminho do antigo tramway da cantareira (um outro ramal diferente daquele que passava pelo jaçanã), consegui um mapa e hélas! é o caminho, em boa parte, que faço de bike pra casa! caminho que tinha uma vez sido mostrado pelo gatti, mas eu nunca tinha me tocado que era um caminho bom para uma linha de trem. passa na frente da casa do meu amigo juliano (sempre tenho vontade de gritar no meio da noite, pra acordá-lo, mas ainda não fiz essa sacanagem).

hoje a talita, historiadora esperta, acrescenta mais um dado: caminhos suaves também são aqueles dos bois.  dos carros de boi.

quando a cidade foi singrada por ruas para os carros, perdeu-se a percepção do relevo. trens, bois, bicicletas, não desafiam o relevo: contornam-no, sobem os morros tortuosamente, suavemente, no tempo que se exige para subir. assim como a via anchieta é mais bela que a via imigrantes, na serra entre são paulo e santos, a estrada velha de santos, dos 1800, é mais tortuosa e muito mais bela. assim como outras estradas do entorno de são paulo: a estrada do rio acima, em mairiporã a caminho de nazaré paulista é belissima, primeiro indo ao lado de um rio, depois chegando às represas. mas quem sabe disso? apenas os locais e os ciclistas.

cidades como são paulo soterram sua história, mas as bicicletas agora serve de pá para retirar os sedimentos. ciclistas lêem os sinais do relevo. conhecer uma cidade, só a pé ou de bicicleta.

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3 Respostas para “bikes, trens e bois

  1. comendo meu 1/8 de melancia aqui, e ap´reciando a lógica do texto…

    sobre trens já aprendido, mas sobre carros de boi não tinha caído a ficha, que legal…

    é o bonde passava enfrente de casa vinha da alfredo pujol, e da cruzeiro do sul.. quando vcs vierem pra cá reparem no último terreno do meu quarteirão, lá era a estação, não se pode construir nada lá é uma faixa o terreno, se voce parar para olhjar vai ver os suportes dos bancos ainda….

    abração

  2. Nota 10. Morei em SP durante 2 anos e sempre me fascinou a proximidade que podemos ter com a história da cidade, apesar de tal história estar por vezes tão “soterrada”, como vc mesmo disse.

    As mudanças que ocorrem com o tempo parecem inevitáveis, e nem acho q as cidades têm que ser como museus intocáveis… Como não sou estudioso da área, não posso afirmar se falta ou não falta planejamento para modificações urbanas (tenho uma tendência a achar que SEMPRE falta! :-), mas considero que, independente disso, o problema é que as pessoas se acostumam a NÃO OLHAR PRA NADA!! Tipo, a história, os costumes do passado, ou mesmo do presente, ficam por vezes escancarados, e ninguém repara ou se importa.

    Em São Paulo existe também a tendência de nem olhar pro outro; putz, alguém que não olha pro semelhante vai olhar para a cidade? O bom é olhar pra vitrine, né? Babar pelo último lançamento de celular, notebook, iPad, tv de led… coisa mais sem graça!

    Outra coisa estranha que sentia em SP é estar num coletivo lotado, em muitos casos as pessoas embarcam todas num mesmo ponto, descem num mesmo ponto, passam HORAS apertadas umas nas outras, e não se troca um sorriso, um comentário… e qndo vc aborda alguém, a pessoa toma um baita susto, acha q é assalto ou sei lá… Não que tenha que ser uma verdadeira terapia de grupo embarcar num metrô ou bus “daqueles” (tlvz fosse melhor!), eu nem sou a pessoa mais extrovertida do mundo, mas o comportamento costumeiro é o cúmulo do cada um por si; como pode haver tando individualismo dentro do transporte COLETIVO??

    E por fim, como falamos em modificações dos espaços, recebi isso via twitter do @wcruz; nunca tive oportunidade de ir lá e pelo jeito perdi: http://www.parquedaaguabranca.blogspot.com/

  3. O nino me apontou esse artigo muito legal. Infelizmente não morei em São Paulo e não desfrutar os detalhes importantes da história. Eu estou há alguns anos em Vitória (ES) e estou começando a descobrir a cidade de bicicleta. Minha concepção da cidade foi completamente modificada. De agressiva estressante, ela passou a ter outros aspectos estéticos, propício a mais sonho. Outro ciclista me fez abrir os olhos, não preciso ficar andando seguindo as grandes avenidas, frequentemente perigosas. Para driblar o trânsito pesado das grandes avenidas, eu foi levado a descobrir as ruas mais tortuosas, vou até subir e passar perto da Catedral Metropolitana… Isso faz parte do meu trajeto para ir trabalhar. O deslocamento para o trabalho virou até diversão!

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