zen bike

o que faz um vídeo de kendo aqui? nenhuma outra arte marcial é tão zen quanto o kendo. o que se vê no vídeo são só as lutas, mas isso é apenas parte. para se chegar a esse nível, temos anos e anos de prática, até se chegar ao ponto de não se pensar nos movimentos: eles apenas fluem.

quando treinava kendo cheguei a ter um momento assim, num treino, enfrentando um oponente muito superior (1º dan – faixa preta – eu nem inkyu – marrom – era), num combate longo no qual eu não tinha a mínima chance de vencer, e “sobreviver” a cada segundo já era uma vitória., evitando que seus golpes saíssem perfeitos. no kendo, só o golpe perfeito vale.

e num dado momento tudo parecia ocorrer em câmara lenta. eu não fazia mais força, vi que ele vinha com um golpe tradicional, o men, que consiste em um golpe vertical sobre sua cabeça, e eu desvie com a ponta da shinai – a espada de bambu – e aproveitei para dar um golpe no tronco, mais ou menos como na figura abaixo:

e o golpe entrou. foi validado, a luta terminou. naquele momento eu tive um breve vislumbre do que seja o zen.

zen é o equivalente japonês ao chines ch´an.  é uma linha do budismo mahayana (o grande veículo), e enfatiza a busca direta da realidade, através da meditação, o zazen, e as duas escolas principais divergem um pouco: a escola soto enfatiza a meditação silenciosa, a escola rinzai prefere usar os koans (enigmas, charadas), para se chegar à iluminação. um koan clássico:

“batendo duas mãos uma na outra temos um som; qual é o som de uma mão?” – hakuin ekaku

a experiência direta da realidade não é racionalizável. de certo modo, é isso que nos diz martin heidegger, que talvez nunca tenha ouvido falar em hakuin ekaku. mas sinteticamente heidegger afasta a possibilidade da verdade racional: o ser se atribui em momentos em que se desvela, mas logo voltamos à banalidade, à ôntica, e a ontologia se encobre. a fenomenologia do mundo ocidental tem o mesmo intuito, o “ir às coisas elas mesmas”, no dizer de hurssel.

o pedalar é indizível. quem já fez um pedal longo entende o que quero dizer e não consigo. não há como explicar. e é preciso que seja o pedal longo. não competitivo. na competição queremos vencer o outro. nos concentramos nisso, não no pedalar em si. mas, e se o adversário for vc mesmo, e mais ninguém? sua luta solitária contra os limites do seu próprio corpo e da resistência do ar, da inclinação da montanha que segue no caminho?

nessa hora sabemos o que devemos ou não carregar na vida. diz-se que no japão da era tokugawa, dois monges zen que haviam feito votos de não tocar em mulher durante uma peregrinação, depararam-se no meio de um caminho com uma gueixa paramentada tentando atravessar um riacho. um dos monges ajuda-a: pega-a nos braços e a atravessa pela água fria das neves derretidas, evitando que ela molhasse suas roupas. o outro monge só observa.

continuaram a trilha, e o outro monge começou a ralhar com  aquele que atravessara a gueixa sobre o riacho. este ouvia em silêncio.

subiram o morro adiante, com um deles ralhando sem parar e o outro em silêncio até que, lá no topo, este responde:

– olha o riacho lá embaixo: eu peguei a gueixa dum lado dele e deixei no outro. de lá pra cá, vc a trouxe até aqui em cima. não está pesado não?

o peso, para o ciclista, é fator crítico. o peso da bicicleta, o peso do corpo, o peso da alma. o que carregar?

num pedal longo, carregamos o que se equilibra na linha tênue entre a irresponsabilidade e a ansiedade desmedida. levar peças sobressalentes de menos é ficar na estrada, levar demais é cansar-se com o peso. câmaras reservas ausentes é contar com a sorte de nunca furar o pneu, mas também não é necessário, muitas vezes, levar pneus reservas.

a justa medida exige um equilíbrio difícil entre o otimismo e o pessimismo, a fé e o desespero. isso não é também a vida?

e o que é a vida? difícil definir. a ciência, ainda não conseguiu fechar um conceito sobre isso, mas sabemos o que é sentirmos que estamos vivos. como não sentir-se vivo ao chegar-se a mais de 70 kms por hora numa descida asfaltada, equilibrando-se sobre pneus de 23mms com 120 libras? sabendo ser impossível frear, impossível parar, não podendo desviar de nada a tempo? e se for durante a noite? à noite não se chega a 70 nas descidas,a luz não permite. o limite de nossa velocidade são nossos olhos. e a sede? a fome? o cansaço? o frio? não são sintomas a lembrar-nos de que estamos vivos?

só quem se excede sabe seus limites. sabe até onde ir, o que suporta. não se trata de procurar o sofrimento por si só. não se trata de pendurar o corpo por ganchos suspensos. essa mortificação é mais próxima ao hinduísmo, e o buda rompeu com o hinduísmo. o sofrimento pode elevar, mas não a mortificação. o sofrimento da elegante simplicidade, do elegante desapego, da leveza necessária, do não carregar títulos, posições sociais, nada, pois no pedal o que nos nivela não é o bolso, mas as pernas.

a bicicleta é um instrumento fantástico para se ver o mundo, como ele é. quem, de carro, sabe o que é subir uma ladeira? suba-a pedalando e se saberá sua inclinação. o mundo é outro e não esse que se vê pela vista esquadrinhada da janela do carro. o que o ciclista vê é o mundo real, assustador e fascinante, vertiginoso e sereno, tão mutável e ao mesmo tempo eterno.

como o samurai cuidava da sua espada, o ciclista cuida de sua bicicleta. boas bikes são como katanas, possuem alma. sentimos isso. o pintor da tradicional pintura japonesa, ao contrário do pintor ocidental, prepara ele mesmo as tintas. o preparar as tintas é um modo de começar a pintar antes mesmo de tocar o pincel na tela. assim, quando se chegar a hora de pintar, a pintura simplesmente fluirá dos dedos, do pincel, pois já iniciada antes. assim é com a bicicleta: aquela verificação sobre a tensão dos raios das rodas, o lubrificar a corrente de tal modo equilibrado que não voe excesso de óleo nas roupas nem falte a ponto de a corrente fazer barulho. uma bicicleta preparada é silenciosa, ao contrário dos carros e motos. a bicicleta não deve fazer barulho senão o do cortar o vento, do atrito do pneu no asfalto. e só. fixeiros gostam de suas bikes silenciosas. boas bicicletas precisam de buzina para serem notadas. pois são tão integradas à paisagem, que fazem parte dela, não destoam, e isso é também um pouco zen.

perceber a bicicleta em movimento como a extensão do corpo, assim como o samurai fazia com a katana: o movimento natural, suave e enérgico, isso é o pedalar. fluir por entre os monstros de metal que são os veículos automotores diversos, como se fosse apenas um vôo de uma mariposa desviando dos ramos das árvores. isso é o pedalar zen.

sentir cada brisa, cada raio de luz, cada paisagem. ir às coisas elas mesmas, ouvir o barulho não de duas mãos batendo, mas de apenas uma mão. ouvir uma única mão.

é preciso entender isso. é preciso pedalar para entender. todo o texto acima é vazio para quem não pedala. é mero jogo de palavras para o não ciclista. mas quem pedala terá outra visão: o texto é desnecessário e incompleto, pois já entendeu isso muito antes de ler esse texto. também é jogo de palavras. pois o zen é o indizível. é zen.

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2 Respostas para “zen bike

  1. Ogum,

    Após anos de Karatê, Aikidô, Shintaido e algum contato com o Kendô, quando nasceu meu filho, decidi sacrificar os treinos.

    O tempo que estas artes exigiam, passei a dedicar ao meu filho.

    Trabalhador rotineiro sedentário como muitos, percebi os meus reflexos regredirem, o meu peso aumentar, a minha mente adormecer.

    Limitado no tempo, descobri na bicicleta uma poderosa ferramenta, que posso utilizar no deslocamento cotidiano, não apenas como condicionamento físico, mas como meio de aprimorar a os reflexos, a mente e o caráter. É a extensão do meu corpo, com ela posso acordar entre os dormidos.

    Silencioso entre os barulhentos, frágil entre os encouraçados, constante, constante. É arte. Só pode ser.

    XpK

  2. Ai ogro… não sei se você viu essa série no Discovery Chanel, mas sente o naipe do samurai cortando um projétil com uma katana…

    é um tempo de reação absurdamente inacreditável…

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