bicicletas, ou a necessária desalienação

percebemos quando alguém é neófito na arte de pedalar pelas suas reclamações sobre conversas técnicas relativas a bicicletas. quando vários ciclistas se reúnem, é comum vermos entre os que “pedalam mais” logo se formarem conversas em torno de detalhes como marchas, peças e etc.  é natural logo surgirem conversas assim:

– trocou o pedivela?

– coloquei um compacto, perdi um pouco nas descidas, mas prefiro girar mais, e usar um cassete menor.

– menor quanto? 12-23?

– não, estou usando 11-21.

esse tipo de conversa, tão natural entre ciclistas, é chata pra quem não é da área. parece grego, parece linguagem cifrada, algo incompreensível. mas quem pedala acha comum relacionar-se com seu veículo na intimidade.

não acontece o mesmo com motoristas. quantos motoristas sabem o que é um motor com 16 válvulas? se abrirmos o capô, 99% por cento não saberá diferenciar um motor transversal em linha de um motor longitudinal em linha, ouum v8 de um boxer. sim, pra 99% dos motoristas, boxer é raça de cachorro, e não configuração de motor.

motoristas estão alienados em relação aos seus veículos. simplesmente sentam no assento, apertam botões, pedais, e dirigem. e de vez em quando se matam pois passaram anos dirigindo um carro baixo e então fazem a grande besteira de comprar um SUV e querem dirigí-lo do mesmo modo e capotam numa curva. pois não sabem algumas regras básicas de física que todo ciclista domina: veículos com o centro de gravidade mais alto requerer maior cuidado ao se fazer curvas, são mais instáveis.

já a bicicleta impõe uma relação mais íntima do ciclista com seu veículo. a primeira descoberta é a calibragem dos pneus: alguns demoram a perceber que 28 libras é coisa de pneu murcho, que pneus de bike usam no mínimo 35 libras – meus sliscks nas mtbs rodam com 65 libras, nas speeds com no mínimo 110 libras, e isso pq são pneus clincher…

depois a segunda descoberta: colocar pneus mais finos e com calibragem maior deixa a bicicleta mais rápida, mais arisca, menos confortável, mas muito mais gostosa de se pedalar “no veneno”, agressivamente, ultrapassando carros, correndo menos risco nas rotatórias por poder acompanhar o trânsito na velocidade dos outros veículos.

e daí as marchas começam a ser limitadoras. primeiro se troca o cassete, depois se troca o pedivela… e claro, depois o passo natural: a speed, a estradeira, aro 700c com pneus fininhos…. pedivela com coroas gigantes e aquela facilidade imensa pra passar de 40 por hora ali na av. paulista mesmo, entre um farol e outro…

aí então o ciclsita já está praticando essa conversa de doido quando encontra seus pares. sim, pois ele percebe que a bicicleta é uma espécie de extensão do seu corpo, e cada detalhe na bicicleta tem um efeito diferente no pedalar. que não basta uma bicicleta (ciclista que se preza normalmente tem duas, no mínimo), pois cada bicicleta tem suas características únicas, o que explica muitas vezes num grupo alguém chegar com alguma bicicleta um pouco mais antiga – não uma antiguidade, uma peça de museu, mas uma bicicleta com cerca de 20 anos de uso – e logo ser rodeado  pelos amigos,  curiosos.

pois o que faz alguém pedalar melhor são as pernas musculosas a bicicleta adequada, não a bicicleta mais cara.

o carro aliena, a bicicleta nos traz de volta à materialidade da realidade.

então, ciclista néofito, quando começar aquela conversa de doido perto de vc, não se afaste. ajunte-se, aproveite pra aprender. sempre há algo para aprendermos sobre o mundo das bikes. todo mundo pode ensinar algo, e todo mundo tem algo a aprender.

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3 Respostas para “bicicletas, ou a necessária desalienação

  1. Sempre fico empolgado com seus textos.
    E realmente, me sinto assim.
    Quando alguem me pergunta alguma coisa que eu sei explicar, ficam me olhando com aquele ar de “WTF?” ou “La vem ele com esse papo de novo”.
    Mas é bem por aí mesmo.
    Não me sentia assim em relação ao carro, mas conheço cada barulhinho diferente da minha bike, apesar de ser uma bike simples.
    Quanto ao fato de aprender, o seu site-manual é perfeito pra isso.
    Continua cara, nunca pare.
    Abraços, Rafalito.

  2. oi to com um problema,tenho uma mtb vikingx x55 quero por pedivela 52-41-30 com 9v 11-34 achei o central 128mm mas não acho o cambio dianteiro compatível e ninguém sabe informar…se você souber dá uma força,me passa o traseiro também se puder seus textos são ótimos parabéns

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