a sustentável leveza das bikes

o título foi sugerido pela julipa. mas só o título. dada sua formação, talvez quisesse que eu escrevesse sobre bicicletas e sustentabilidade, mas acho que não há novidades nesse assunto. tá todo mundo cansado de saber que bicicletas poluem muuuuuuito menos que carros. poluem um pouquinho na sua produção, e seus pneus usados precisam ter destino certo depois. mas só. e um carro? basta ver que em são paulo estamos cortando o ar em pedacinhos pra poder respirar.

a roda da penny-farthing era leve demais e não resistiu...

mas não é dessa leveza que quero falar. mas sim do pouco peso. sim, há bikes extremamente leves. bikes inclusive abaixo dos 4 kg de peso. sim, isso é possível, mas não sem um certo sacrifício na resistência e/ou durabilidade. por isso bicicletas de estrada, pelas regras da UCI, devem pesar no mínimo 6,8 kg.

protótipo da canyon, com 3,7 kg de peso

mas não é preciso ter bicicletas tão leves. os especialistas em longa distância recomendam bicicletas de no máximo 12% do peso do seu corpo. claro, quando se é pesadão, isso é fácil. um ciclista de 100 kg pode rodar bem numa bike de 12 kg. mas quando se pesa 60 kg, como fazer sem gastar fortunas?

não há mágicas. bicicletas bem projetadas são leves pela sua própria natureza. bons projetistas usam os materiais disponíveis e projetam as bicicletas com o menor peso possível dentro do uso que se dará à bike. assim, claro, bicicletas de estrada são bem mais leves que mountain bikes, que precisam ser mais resistentes para aguentar maiores abusos. e claro, as bicicletas de carga nas quais muitos ciclistas nem prestam atenção, são reforçadíssimas, para carregar às vezes mais de 100kg de carga além do próprio ciclista.

no desenho das bicicletas a questão do uso e ou desperdício de materiais é crítica: material a mais é peso a mais. simples assim.  e os refinamentos chegam ao ponto de se usar tubos de espessuras variáveis, para que sejam mais reforçados onde o esforço é maior, mais finos onde o esforço é menor. isso se usa tanto nas bicicletas fabricadas com tubos metálicos (aço carbono, aço cromo-molibdênio, titânio, alumínio) como também nas bicicletas com quadros e peças de material plástico (fibra de carbono e resinas).

esta bicicleta usa tubos de paredes grossas. roda dianteira de 20" para aguentar mais peso.

na fabricação de quadros com fibra de carbono há uma preocupação em reforçar o material onde o esforço é maior.  é visível em fotos como os quadros de fibra de carbono são mais volumosos no entorno da caixa do pedivela.

quadro de carbono genérico chinês. note como é mais espesso o material em torno da caixa do movimento central.

o bom projetista de bicicletas as projeta no limite do uso específico dos materiais. sim, não há muita lógica em se projeta ruma bicicleta ultra-resistente, que pese quase 30 kg, se seu uso será feito única e exclusivamente no asfalto, para usos apenas do ciclista, sem carga alguma. nem em se usar suspensões pesadas se podemos usar materiais que absorvam os impactos sem acrescentar tanto peso à bicicleta. por isso, uma boa bicicleta para asfalto não possui suspensões, e mountain bikes que não serão usadas para downhills insanos muitas vezes são de rabo duro, hardtails, sem suspensão atrás. é a busca pelo equilíbrio entre leveza e resistência. a maciez do conforto mínimo e a rigidez necessária para que a força imprimida nos pedais chegue o mais íntegra possível à roda traseira, evitando na medida do possível a flexão lateral do quadro.

claro, a cada vez maior especialização dos modelos de bicicleta tem levado sua construção aos limites da variedade no uso dos materiais. não vemos mais no pelotão profissional pro tour bicicletas de aço, e demorarão décadas para vermos bicicletas de fibra de carbono sendo usadas para cicloturismo. a especialização é tanta que os modelos usados nos pelotões variam de acordo com o tipo de prova: curta, longa, plana, montanha.  uma bicicleta usada num aprova curta de 50 kms pode ter características muito mais agressivas de aerodinâmica e rigidez (o que pode levar a um certo desconforto) do que uma bicicleta que será usada numa clássica de 220 kms, onde a permanência sobre a bicicleta se dá por um tempo muito maior, o que pede um conforto ligeiramente maior. há diferenças entre o ajuste da bicicleta para ser usada numa clássica de 200 kms ou numa etapa de uma grande volta, também com 200 kms. na grande volta, o ciclista precisa estar inteiro no dia seguinte, na clássica o ciclista pode dar tudo de si, pois a prova é de um único dia.

bmc sendo utilizada na paris roubaix

o mesmo ocorre entre as bicicletas para o fora de estrada: as leves e resistentes bicicletas de cross-country são muito diferentes dos verdadeiros tanque de guerra que são as bicicletas usadas em downhill.este quadro não diferentes bicicletas de cicloturismo: os quadros variam também, seja entre as rápidas e leve bicicletas de light touring, onde se pedala com pouca bagagem e muito dinheiro no cartão de crédito, às pesadas e resistentes world tourers, sherpas, preparadas pra se carregar até 30 kg de carga (pq não uns 15 litros de água para poder se cruzar um deserto?), sem que as peças quebrem, andando sempre a baixas velocidades.

balfa bb7 para downhill

e, com tantos detalhes, usar a bicicleta errada na função errada pode gerar frustrações. pesadas mountain bikes no asfalto são lentas. quadros de estrada, mesmo mais antigos em aço, quando convertidos para se usar com roda fixa, não devem ser usados em manobras (alguns fixeiros adoram manobras em uma roda só, saltos e etc) sob pena de quebrarem.

cada material tem seu uso, cada projeto sua especialidade. quando usada a bicicleta dentro dos limites do seu projeto, pode durar décadas, ser extremamente prazeiroso seu pedalar, ser esta bicicleta uma companheira fiel e sempre presente de momentos inesquecíveis na sua vida. quando usada do modo errado, fora de suas funções, pode inclusive quebrar, inutilizar-se. uma bicicleta inutilizada é um desperdício de material, de trabalho humano sobre aquela peça. e do ponto de vista da sustentabilidade, não quebrar é sustentável, e melhor do que reciclar é reusar.

suba uma montanha com essa carga. clique na imagem pra mais infos.

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3 Respostas para “a sustentável leveza das bikes

  1. Gostei Odir um tópico bem detalhado esse hein..
    è fácil vender a idéia de que um quadro deve ser rígido para evitar perda de energia, muita flexão e nas direções erradas é mesmo ruim, mas um pouco de flexão e sempre bom, ajuda a distribuir a tensão por todo o quadro além de evitar concentrações de tensão (geralmente onde ocorreria falha por fadiga)… como você falou ” quando usada a bicicleta dentro dos limites do seu projeto, pode durar décadas” O aço ainda é o que distribui melhor as tensões, o titânio também…

    Isso tudo é mera teoria,
    eu sempre andei em bike de aço rígida, e sempre gostei,,, talvez porque seja melhor dançar num chão de madeira do que num chão de concreto…

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