um corpo estendido no chão.

na rodovia ayrton senna,  em são paulo, há um trecho com vasta utilização por ciclistas, que vão e vem pelo acostamento, como deve ser. é também um local de trânsito intenso, com carros querendo cortar caminho pelo acostamento, ônibus entrando com tudo nos acostamentos para parar nos pontos. em resumo, uma via necessária para os ciclistas da região, em suas MTBs, barra-fortes, caloi 10 anitgonas (que são vistas nas estradas, famosas que são pelo rodar macio e pelo bom desempenho, com ferramentas amarradas a ela).

uma ghost bike, homenagem a ciclista morto por veículo automotor.

mas claro, o noticiário sempre cobre congestionamentos naquela região. afinal, o que importa mais do que o trânsito, não é? e hoje, o gomes, um cidadão comum, segurança num hotel na oscar freire… em sua bicicleta, na rodovia ayrton senna, indo ao trabalho, morreu atropelado por um ônibus. e claro, como sempre, a notícia é o trânsito, como escreveu o portal R7:

Ônibus atropela ciclista na rodovia Ayrton Senna

Estrada tinha cerca de 10 km de lentidão no sentido São Paulo, por volta de 7h50

pois é. no trecho todo da reportagem, nenhuma nota que identificasse o falecido. afinal, ele não importa, importa o trânsito, importa o congestionamento que se formou, importa que havia lentidão do k15 ao km 24, que a concessionária ecopistas informava que ainda não haviam sido retirados o ônibus, a bicicleta, e o corpo do gomes.

ciclistas urbanos em são paulo são muitos e poucos. muitos para reclamarem quando 100 ou 200 se reúnem e pedalam pra se divertir (e quando as pessoas vão se divertir de carro , alguém reclama?), mas poucos o suficiente para cada vez que temos uma notícia dessas, consigamos descobrir quem foi a vítima muito antes da imprensa. sempre tem alguém que conhece alguém que conhece quem faleceu. sim, somos poucos assim, e muito unidos, unidos pelo sofrimento comum a todos, pela condição existencial comum. nos conhecemos, pois somos gente, e não máquinas, nossas pernas ainda são o maior diferencial no desempenho, não o equipamento.

mas o trânsito das máquinas importa mais. nas tantas distopias que andaram fazendo sucesso nos cinemas, como matrix ou o exterminador do futuro, o pesadelo distópico é representado por máquinas que dominam os humanos. pergunto-me, não chegou já esse tempo? já não estamos num mundo em que as máquinas dominam os humanos, centralizam a vida da gente? ora, já dominaram a economia faz tempo…..

sim, vivemos num  mundo distópico, onde casas são derrubadas para se abrir mais vias para máquinas de quatro rodas passar.  pessoas deixam de ser pessoas para serem classificadas de acordo com seu grau de movimentação de valores: classe A, B, C D, E… classificação esta feita pelos bens que possuem, pelo que gastam, pelo que compram, fazendo girar as máquinas da produção.

hoje chegamos ao paroxismo de adaptar os corpos à produção industrial. foucault dizia que isso já acontecia, de certo modo, já no século XIX, o sistema procurava, pela disciplina, formar corpos dóceis…

agora são moldáveis. não são as roupas que se adaptam a nós somos nós que nos adaptamos a elas. estabelecemos medidas genéricas como metas….  somos nós que nos adaptamos às máquina,s que preferem produzir roupas em alguns padrões pré estabelecidos. assim é com tudo atualmente, vivemos entre máquinas, produzindo para elas, consumindo o que produzem, fazendo a produção girar, e claro, ir de A a B tem que ser feito na conveniência das máquinas, na padronização das máquinas, usando os carros  que produzem. não somos mais humanos, mas estatísticas. a vida ou a morte só interessam como estatística, quando atrapalham o trânsito.

o segurança gomes deixará saudades para quem o conhecia. sua família sentirá sua falta, seus colegas de trabalho, seus colegas de pedalada na rodovia ayrton senna. mas, na imprensa, nas estatísticas, é apenas um corpo estendido no chão, atrapalhando o tráfego, causando lentidão. não me espantaria se algum calhorda depois defenda que se proíbam bicicletas na rodovia ayrton senna, para a “segurança” dos ciclistas.

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Uma resposta para “um corpo estendido no chão.

  1. Essa questão da segurança no trânsito não tem solução.

    Tem uma frase que diz:
    “É matemáticamente impossível solucionar o problema do trânsito colocando mais carros na rua”.

    É uma frase óbvia e brilhante!

    O problema de cidades como Rio e São Paulo é que TODO MUNDO quer ter um carro.
    Todo mundo acha “justo” poder ter uma carro.
    Todo mundo acha que tem o “direito” de ter um carro….e tem mesmo!

    Mas como todo mundo quer ter um carro, não sobra espaço para as pessoas andarem com segurança e tranquilidade. Consequentemente, o trânsito fica inchado de carros, não flui, as pessoas ficam irritadas e nervosas e dirigem com menos paciência e mais displicência.

    Como resolver isso?
    Só se as pessoas aceitassem que nem todos deveriam usar o carro todos os dias….mas isso é impossível.

    Deixo uma pergunta:
    Como é possível uma sociedade funcionar quando TODO MUNDO quer ter TODOS os seus desejos satisfeitos, sem se preocupar com mais ninguém?

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