cicloturismo?

o que tem uma bike de cicloturismo de especial?

trek 520 1983, com bagageiros e cubo dianteiro com dínamo

tudo. é simplesmente uma bicicleta na qual vc ficará horas e dias pedalando. carregando carga. nos retões, nas descidas, e sobretudo em longas subidas, sempre mais difíceis quando se carrega 15 ou mais kgs de carga.

não vou falar aqui das light tourings, pois já falei sobre elas indiretamente quando escrevi sobre as bikes para os brevets, os audaxes.

uma audax bike

vou falar das bikes de cicloturismo pesado, as sherpas, burricos de carga, com alforges à frente e atrás, guidões altos dos mais diversos estilos, relações curtas pois é o que precisamos com muito peso.

houve um tempo em que as bikes de cicloturismo não se diferenciavam das demais. afinal, havia pouca diferença entre as bicicletas. as de corrida apenas com guidões mais baixos, mas todas com rodas de tamanhos muito grandes – 630 ou 635mm de aro – pneus balão, até pq as estradas não eram grande coisa. mas nos anos 50 as bicicletas começam a progressivamente tornarem-se especializadas, e a bicicleta que se usava para viagens era a mesma do uso cotidiano: robusta, com pouca manutenção, confiável, algumas marchas apenas, e não mais a bicicleta de competição.

nos anos 70 temos uma progressiva apropriação de peças das bikes de corrida para se utilizar nas viagens: marchas, várias marchas, os guidões drop que permitem muitas formas de se pegar – coisa essencial quando se passa várias horas pedalando, mudar a posição das mãos evita dores.

com a explosão, nos anos 70, das hoje chamadas old ten, de 10 marchas (a caloi 10 antiga é uma delas), houve também quem passasse a viajar com elas. se olharmos bem, a geometria da caloi 10 antiga, com aros 27, 46 cms de chain stay, aquele garfo com uma imensa curva à frente, faz dela uma bike formidável para longos dias na estrada. pena aqui no brasil terem sido feitas de aço carbono, e não de aço cromo-molibdênio.

em 1983 a trek lançou a 520, até hoje em produção com pequenas alterações. essa bicicleta determinou os rumos das chamadas tourings na américa do norte. aros 700c (622mm), longos chain stays de 46 cms… por outro lado, os franceses, com tradição no cicloturismo, preferiam usar o 650B  (584mm), mais resistente, com bom rendimento. pra quem não conhece muito, touring bikes podem parecer speeds. mas não são.

pois bem. à medida em que os norte-americanos e europeus passaram a viajar mais longe, fora das estradas bem asfaltadas, e também com o surgimento das mountain bikes, as tourings foram mudando. primeiro ganharam relações mais curtas, essenciais quando estamos carregando peso – lembro sempre da minha parkpre, na qual eu nunca usava a coroa menor do pedivela. uma vez, com alforges, numa subidinha perto aqui de casa me vi usando a relação mais curta da bicicleta, e penando. os 20 kgs nos alforges fizeram muita diferença…

depois apareceu muita gente começando a fazer viagens usando mountain bikes que, naquela época, possuíam uma geometria mais confortável que a atualmente encontrada nesses modelos, e também eram feitas de aço cromo molibdênio. muitas tinham quadros que vinham, como era comum na época, com olhais para bagageiros e pára-lamas. cicloturistas começaram a perceber que o aro 26 das MTBs permitia que se viajasse por estradas piores – vale dizer, poderiam alcançar regiões mais inóspitas, trilhas mais secretas e etc. e seu equipamento – freios, relação, e etc – era também mais robusto.

koga miyata randonneur. trekking bars. aro 700c, quadro cachimbado. meu amigo mathias tem uma, que bike esplêndida!

e assim, do cruzamento das tourings mais antigas com as MTBs surge um novo modelo, as heavy loaded bikes, as hard tourings, as globettroters. aquele tipo de bicicleta que se usa para dar a volta ao mundo.

o que elas possuem hoje em dia?

– aros 26. forte, resistente. e também, depois da explosão do MTB, o mais facilmente encontrado mundo afora. quando da olimpíada de pequim, a federação francesa de cicloturismo soltou um comunicado recomendando fortemente que os viajantes usassem aro 26 em suas bikes.

– os longos chain stays de 46 cm. isso torna a bicicleta muito mais confortável. perde-se um pouco da rigidez nos sprints, mas quem vai sprintar com muita carga?

– caixa de centro baixa. as MTBs modernas tem caixas de movimento central mais altas, para proteger de batidas. mas pedivelas mais baixos deixam a bicicleta mais estável, mais confortável para se pedalar durante muito tempo.

– garfos rígidos . suspensões dão manutenção, fica mais difícil colocar bagageiros dianteiros. e um bom garfo de cromo-molibdênio é bem confortável.

– guidões drop ou borboleta, tb chamados de trekking bars, ou guidão de alemão, pois são muito populares na alemanha nas bicicletas de cicloturismo. a vantagem dos guidões borboleta é poder usar todos os manetes de MTB, sem maiores problemas.

– quadros em aço cromo-molibdênio. confortável, quem já andou em bikes de cromo sabe disso. e, por ser aço, permite que se solde sobre os tubos um monte de olhais para para-lamas e bagageiros, suportes para garrafas de água diversos (normalmente 3 suportes para caramanholas), para bomba de ar, para raios sobressalentes…. e passadores para os cabos todos, eventualemnte suportes para montagem de alavancas de câmbio no quadro, as pontes para o término dos cabos para freios cantilever, e etc, etc, etc.

– trocadores de marcha do tipo bar-end ou de quadro, no caso das bicicletas com guidão drop, e de MTB nas bikes com guidão borboleta. embora há quem adapte as alavancas de quadro nos guidões borboleta. o ideal é que o trocador permita a não indexação, para caso de se trocar o tipo de cassete ou desalinhamento da gancheira ou mesmo algum acidente que tenha atingido o câmbio traseiro.

– guidões posicionados mais altos.

– bagageiros atrás e na frente, para dividir bem a carga.

alguns modelos são bem famosos, como a thorn sherpa e a surly long haul trucker. andar numa delas é receber um convite para uma volta o mundo.

thorn sherpa. aros 26. tanto com trekking bars (preta) quanto com guidão drop (vermelha). um dos meus sonhos de consumo.

outro expediente usado é adaptar antigas MTBs dos anos 80 e 90, feitas em aço cromo-molibdênio, mas com geometria mais confortável. essas bicicletas só devem às bicicletas de cicloturismo pesado a traseira mais longa de 46 cms, embora tenham em média 43 cms, o que já aumenta consideravelmente o conforto.

aqui no brasil, há um hype recente dos aros 700c – que muita gente simplesmente não conhecia. e tb existem uns doidos querendo botar aro 700c nas MTBs, baseando-se na falsa premissa de que o aro 700c “rende mais” – há um post sobre isso: pneus finos (não importa a medida) rendem mais na pedalada. e marchas mais longas é quma questão de se colocar um pedivela com coroas maiores.

trocar o tamanho das rodas de uma bicicleta implica, salvo nas bicicletas ue usam freio a disco, em alterar o sistema de freios. há quem troque a potência e modulagem dos muito eficientes v-brakes por freios ferradura de pivots simples, o que é uma boa receita pra uma tragédia numa descida longa com 25 kg nos alforges. isto sem falar na maior dificuldade com rodas grandes para os ciclistas mais baixos (nos quais me incluo). uma coisa é uma speed tamanho 52 (que é o que uso) ou 50 com aro 700c e pneus de 23mms, outra coisa são bikes no mesmo tamanho com aro 700c e pneus de 50mm! a roda dianteira vai bater no pedal (é o chamado overlap) e a bicicleta ficará mais pesada nas subidas também.

surly long haul trucker - sem os bagageiros. até o tamanho 52, só com aro 26. acima disso o comprador pode escolher entre o aro 26 e o 700c.

lá fora, onde as bikes de aro 27 e 700c são comuns há décadas, vemos cicloturistas encantados com a hipótese de adaptar velhas MTBs para viajar. o que não falta são páginas e páginas de blogs, diários e fóruns discutindo o assunto. ao se digitar “mtb conversion touring” no google, achei, agora mesmo, quase 6000 resultados.

trek 830 1993 adaptada para o cicloturismo

por outro lado, com a onda recente de MTBs com pneus 29″ (nada mais são do que aros 700c, mas com 19mm de largura – como qq aro ptra MTB – e não 13mm de largura, como nas speeds),  aumentará a oferta de pneus maiores para os ciclistas mais altos. mas a regra da física prevalece: objetos menores são mais difíceis de serem dobrados. uma roda aro 26 com 36 raios, bem montada, aguenta muito mais peso e pancadas do que qq outra de diâmetro maior. se vc está no meio do deserto do atacama, ou descendo alguma pirambeira nos andes, isso faz sim diferença.

links:

trek 520

http://www.trekbikes.com/us/en/bikes/road/520/520/

surly long haul trucker

http://surlybikes.com/bikes/long_haul_trucker_complete/

koga miyata randonneur:

http://www.koga.com/uk/bike.asp?collectionid=11&segmentid=90&id=8884547

artigo de um cicloturista que usava uma trek 520 e passou a usar uma mtb pra viajar:

http://www.bicycletouring101.com/MountainBikeAsTouringBike.htm

crazy guy on a bike – site que reúne fóruns, diários, fotos e etc. sobre cicloturismo.

http://www.crazyguyonabike.com/

trek 830 adaptada pra cicloturismo.

http://www.thirdwave-websites.com/bike/trek830.cfm

vwvagabonds: recycled mtbs:

http://www.vwvagabonds.com/Bike/BikeTheBikes.html

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2 Respostas para “cicloturismo?

  1. Dei uma olhada na trek 520, que maravilha..
    Para uma bike pra todo tipo de rolê (como eu vejo a minha) e um dia pra um rolê por aí…concordo em usar trocador não indexado, permite uma sensibilidade maior, corrige o desalinhamento do cassete como você citou, neste caso estamos considerando uma troca de emergência, num lugar desconhecido por uma peça que não é a ideal, aí o trocador não indexado é melhor de novo, por ter menos peças, assim mais fácil de mecher e fazer gambis..

    as orelhinhas do bagageiro, as guias de conduíte, são chamadas braze-on, traduzindo, são brazadas e não soldadas, elas são de aço carbono ligadas de maneira reversível (caso vc queira soltar vá com o maçarico) ao aço cr-mo do quadro, garfo… com a brasagem pode-se ligar titânio ao aço, ou o aço carbono dos cachimbos ao aço cr-mo dos tubos principais de um quadro…
    fiquem em paz,

  2. Excelente. Ajudou muito. Volto para comentar os resultados depois da minha primeira viagem.

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