talibiker

– pô, vc não tem mais idade de ficar andando de bicicleta por aí, tá na hora de ter um carro!

ouvi isso de uma aluna mais velha que eu, ao sair da faculdade. vim pedalando e rindo por dentro. ela apenas espelhou o pensamento generalizado da população brasileira da classe média. a classe baixa talvez pense igual, mas anda de bike por necessidade, por economia, e respeita quem pedala por o vê como igual. mas a classe média vê a bicicleta como brinquedo mesmo, coisa pra se usar até uma certa idade…

vim pra casa pedalando, me divertindo – sim, é divertido pedalar por são paulo à noite, voltando pra casa, podendo suar adoidado, pedalando em pé nas subidas e forçando as pernas, descendo ladeiras que nem um doido quando a relação 48X12 não dá conta de acompanhar a velocidade.  vim rindo, sempre, lembrando da polêmica da semana, a coluna da desinformada barbara gancia que criticou a visão avançada de renata falzoni acerca da bicicleta como meio de transporte, não como brinquedo.

vim rindo lembrando da elegantérrima resposta da renata falzoni. eu já era fã dela, agora quero ser como ela quando crescer…. afinal, já que bike é coisa de criança, eu ainda posso crescer… hehehehe

essa semana um dos amiguinhos da b. gancia ainda formulou um neologismo que, no fundo, adorei: talibiker. claro, ele quis referir-se aos taleban (sim, é no plural), o grupo fundamentalista muçulmano que move uma guerrilha no afeganistão.

mas o cidadão que criou o neologismo ignora o que significa “taleban” – é o plural de “talib”. “talib” quer dizer aluno. aquele que aprende, aquele que se abre ao conhecimento,  aquele que busca o conhecimento, o novo, o mais elevado. nesse sentido eu sou sim um “talibiker”, pois sou um ciclista empedernido que possui quase uma dezena de bicicletas e nenhum carro, e reconheço a bicicleta como um instrumento maravilhoso para se aprender sobre o mundo.

a bicicleta me fez ter uma outra relação com o relevo dos locais onde pedalo. a bicicleta me fez ter uma outra visão sobre a matéria e a substância das coisas – afinal, tive que estudar muito física e química pra entender pq gosto tanto dos quadros de aço cromo-molibdênio e alumínio eu só gosto em alguns componentes. a bicicleta me levou a conhecer pessoas maravilhosas, e por isso entendo pq o grande e visionário h.g. wells declarou que acreditava ano futuro da humanidade cada vez que via uma criança numa bicicleta. entendo pq einstein afirmou que teve o “click” pra visualizar a teoria da relatividade justamente andando de bicicleta.

é engraçado, enquanto o carro segrega, a bike une.  qq um que já viu uma reunião de ciclistas sabe disso, há um apagamento de sinais de classe nas conversas. ciclistas são uma raça diferente, que fala muito quando em grupo, que discute peças de bicicleta a noite inteira, vemos homens discutindo depilação e mulheres discutindo detalhes técnicos que não discutiriam sobre carros. a bicicleta desaliena, é tão bonito ver uma pessoa descobrindo que borrachas tem composições diferentes e isso vai impactar a velocidade dela ao pedalar, redescobrir leis básicas da física que teimamos em ignorar cotidianamente.

existencialmente falando, a bicicleta é um poderoso elixir anti-emburrecimento, anti-embrutecimento, anti-solidão. dizem os samurais que quando o oponente é superior, não se deve lutar. o mesmo se o oponente é inferior. mas se o oponente é igual a vc, então ele entende o que vc entende, e não há pq lutar. e assim são os ciclistas. um é capaz de entender o outro, ligar-se ao outro, pois as condições existenciais se igualam: a chva nos molha a todos, as ladeiras nos queimam as pernas de tanto fazer força não importa nossa classe social, nossa etnia, nossa idade.

mas a bicicleta não é só isso. é o único meio de transporte individual viável nas grandes cidades. é isso que b. gancia não percebeu e renata falzoni viu há décadas. r. falzoni não é apenas jornalista, é arquiteta-urbanista. sua visão de mundo é a da integração das pessoas ao mundo em que vivem.  um urbanista é aquele que enxerga o urbano, o humano em convivência no mesmo espaço comum.

quando eu crescer, eu quero ser que nem a renata falzoni. quero ver kms à frente. já tenho um tempinho de chão no mundo das bikes, mas preciso aumentar. há coisas que vi há tempos, e que infelizmente não mudaram, nestes tempos de tanta militância pro-bike como nunca se viu em são paulo. mas algumas coisas ainda não mudaram. ainda há incompreensão por parte dos carrólatras em geral  sobre o uso da bicicleta como meio de transporte. embora haja uma melhora sensível em relação ao panorama de alguns anos, o avanço ainda é pequeno. a ver, basta ouvir essa entrevista de 2003, quando a bicicletada fazia um ano no brasil. melhorou, mas melhorou pouco. já se via a necessidade de se usar bicicletas dobráveis, que hj nós temos disponíveis, mas àquela época ainda não. e aquele que não dirige ainda é muito mal-visto, cansei de passar por retardado mental por não gostar de dirigir. e continuo passando, conforme o diálogo relatado lá no começo deste texto.

a bicicleta é o novo, é a liberdade de movimentar-se sem ajudar a matar nenhum dos quase 4.000 mortos anuais que temos na grande são paulo em razão de males causados ou agravados pela poluição de veículos automotores. sim, são quase 4.000 vidas que se perdem ao ano pq as pessoas insistem em usar a bunda pra se locomover, e não as pernas, como questiona meu colega do fórum http://www.pedal.com.br, o “voodoo”.

é, talvez eu seja um talibiker.  talvez eu seja como aquele personagem do mito da caverna, do platão, que desvencilhou-se das cadeias, saiu da caverna e agora quer fazer os outros verem o mundo sob a luz do sol, e não as sombras grotescas da caverna. talvez eu seja um iluminista, que acredite na difusão do conhecimento como forma de progresso.

talvez, talvez, talvez. mas não estou sozinho, há muita gente boa junto. o melhor de são paulo, com certeza. e claro, nesse grande grupo de ciclistas pedalando tanto, a renata falzoni é guia do grupo, lá na frente. a gente vai pedalando atrás. com roupa ou sem.

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17 Respostas para “talibiker

  1. Ótimo texto. Só para lembrar a Bárbara agora tem um companheiro o senhor Ciro Vidal. Que também acha que bicicleta tá atrapalhando o trânsito.

  2. Oi professor, mas que desrespeito dessa aluna, professor !

    Discorreu muito bem, deu o tom, investigou, dissecou, matou a pau e não tá prosa.

    E a entrevista de 2003 , muito boa, você fala bem ao vivo, uma certa prática adquirida diariamente com platéias, imagino…rs.

    abraço

    Márcio Campos

  3. Sensacional, meu caro. Ótimas reflexões, que estimulam as nossas. E continuemos alunos da vida, em vez de fugir da escola de carro.

  4. Pois é só posso ser um Talibiker, meu amigo.
    Isso é muito bom.

  5. Lendo e repassando!
    Muito bom!

    😉

  6. Excepcional! Talvez eu seja um talibiker, também 🙂

  7. Pingback: Mais do mesmo « Igual Você.

  8. Pedalamos juntos, em tudo.

    Abraços!

  9. nossa! inspiradora reflexaão…
    obrigada gnomo!

  10. Ainda tenho só uma bike. Acho lindo me locomover sem poluir, e sem precisar passar por exame algum!
    Pedalar, como a natação, é apaixonante!

  11. É sempre um prazer ler ótimas idéias em um texto bem escrito. Parabéns. E vamos sendo talibs a vida toda se possivel.

  12. Pingback: visionários, iluminados e obscurantistas | as bicicletas

  13. Belo texto!
    A bicicleta aproxima as pessoas e muda nossa visão de mundo!

  14. Disse tudo!!!!
    Melhor ainda foi ver minha foto no post! 🙂
    Acho q nessa aqui, lê-se melhor: http://picasaweb.google.com/gledson.ef/WNBR2010#5448834846423309122

  15. Pingback: renata falzoni e a medalha | as bicicletas

  16. Sensacional esse texto. Parabéns, conseguiu pôr emoção e até fiquei com vontade de pegar a minha bike e sair debaixo desse calor de 50ºC de Bangu, no Rio de Janeiro. rss

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