por um milésimo de segundo

há algum tempo atrás escrevi aqui que “ninguém pedala impunemente em são paulo“. isso num texto sobre a bicicletada. mas chamo a atenção a esse aspecto de “pena”, de “punição” pelo pedalar.

a última foto do chico, tirada pela amiga sobrevivente, minutos antes do (não foi) acidente

pedalar é uma coisa fantástica. por isso pedalamos.  seja pra jogar bike-polo, seja pra percorrer as ciclo-faixas dominicais de são paulo, seja para fazer uma bela cicloviagem pelo interior de santa catarina, seja para brevetar um audax. nós gostamos muito. quem pedala o faz pois gosta muito. muito mesmo.

pois não é fácil ser ciclista no brasil. não apenas em razão da falta de uma estrutura de segurança. mas também pela culpabilização da vítima.

cada vez que algo acontece a um ciclista, ele é culpabilizado.

imagine a seguinte situação: uma pessoa, andando pela calçada, é atropelada por um carro que sobe pela calçada, saindo do leito carroçável. agora imagine todo mundo dizendo que foi o pedestre, que apenas estava andando na calçada, que se expôs ao risco! que, onde já se viu? andar por aí?

parece um pouco absurdo, mas é a regra quando falamos de situações de quedas, de atropelamentos, de mortes. que, em sua grande maioria, se dão quando o ciclista está transitando no lugar que a lei determina que transite.

e, assim, muitas vezes o ciclista brasileiro em geral vive uma sucessão de “quases”. quase caiu (nos buracos da via que resultam de obras mal feitas, sempre na faixa direita da via), quase foi atropelado (pelo motorista que “não o viu”, apesar do ciclista estar usando roupas de cores berrantes)… uma sucessão de quases, como disse há algum tempo meu amigo thiago bennichio, “a gente vive num quase constante… mas um dia falta o quase no começo da frase.”

no dia 11 de novembro passado um grupo de ciclistas passava pela rodovia dos bandeirantes. ela tem asfalto de boa qualidade, não tem subidas íngremes: são longas e suaves. por um bom trecho há uma rede de postos, restaurantes e etc, que são um suporte interessante. um acostamento largo. ou seja, tem toda uma estrutura física para que seja segura para se pedalar…

mas… há sempre um “mas”.  num dado ponto, há uma ligação para outra via, a anhanguera. essas alças de acesso são sempre locais de tensão para ciclistas, pois os veículos cortam sua trajetória numa certa velocidade. alças de acesso, rotatórias e etc são sempre pontos onde o alerta é máximo.

sempre o ciclista atravessa com cuidado, mas sente-se seguro ao final da travessia quando chega à área que está toda pintada de listrado, área “zebrada” como muitos dizem. é a sinalização de solo para que o veículo motorizado não passe ali.

mas daí aconteceu o que sempre queremos que não aconteça.

veículos motorizados são mais pesados. tem mais massa que uma bicicleta. e também andam mais rápido. transferem mais energia no choque com outros corpos.

uma motocicleta de grande porte, esportiva, acima de 500cc, é pesada. e elas andam rápido, como andam!

duas delas vinha pela rodovia dos bandeirantes procurando seus colegas, os viram lá de cima na anhanguera, viraram subitamente à direita para ir à anhanguera. passaram por cima daquela faixa zebrada…

ali havia dois ciclistas que tinham terminado de fazer a travessia do acesso. a primeira moto pega o ciclista que estava atrás com toda força. o choque faz com que este voe longe e atinja a outra ciclista, que também voa. esta, enquanto está no ar, vê passar por baixo de si a segunda motocicleta…

o motociclista tem morte instantânea, o ciclista atingido primeiro não resiste no hospital e morre. a ciclista está com um braço imobilizado, com cortes, com luxações. o segundo motociclista nada sofreu.

tudo numa fração de segundo. tudo num milésimo de segundo.

os ciclistas tinham feito tudo certo. estavam trajados de forma muito visível. trafegando no lugar certinho…

mas as motocicletas estavam andando muito, muito rápido. e quando se está rápido… quando se está à velocidade de 200 kms/h, em um único segundo se percorre 55 metros. o tempo de reação é mínimo. é sempre de milésimos de segundo.

existe uma diferença entre andar a 200 kms por hora num circuito fechado e numa estrada, mesmo que seja uma autobahn alemã.

num circuito fechado como interlagos, o asfalto é feito para dar mais aderência, o que significa maior tração e controle do veículo. todos os veículos estarão indo no mesmo sentido. não há vias alterais, interseções e etc. não há crianças correndo atrás de uma bola….

nas ruas, nas estradas, isso não acontece. as autobahns alemãs são estradas sem limite de velocidade, mas isso acontece em trechos bem estabelecidos e projetados para isso. não temos nenhuma estrada no braisl que ofereça segurança para se trafegar acima do limite previsto em lei, de 120 kms por hora.

não há capacetes, macacões e etc, que protejam um motociclista de uma morte por um choque desse tipo. esse equipamento de proteção é eficiente apenas nos motódromos, que possuem longas áreas de escape para o motociclista caído deslizar… não há obstáculos… se cai, bate e etc, desliza. aqui, no mundo real, não há essa estrutura. há pedras nas estradas. há pessoas, há outros veículos.

talvez um motociclista em alta velocidade veja tudo isso apenas como obstáculos. mas são vidas…

é, o motociclista morreu… minha amiga está machucada. e o chico… o chico foi-se para o céu dos ciclistas, em sua nova bicicleta, aquela que comprou há menos de um mês, que não possuía nem pedais de encaixe ainda…

essa foi uma semana de tristezas. sim. lutos são difíceis de se elaborar. ainda mais pois sabe-se que estamos sujeitos à mesma situação. o “quase” pode falta no começo das nossas frases”.  e ainda temos que nos preocupar com recriminações alheias, pelo simples fato de estar exercendo, de uma forma não nociva,  um simples direito.

bicicletas não poluem.  e sobretudo, bicicletas não matam! esse detalhe é importante.

carros, motos, ônibus, caminhões, matam pessoas. bicicletas? nunca leremos alguma notícia do tipo: “bicicleta desgovernada invade ponto de ônibus lotado e atropela 15 pessoas”. trata-se de uma impossibilidade de meio. bicicletas não têm massa para fazer isso.

e sendo mais lentas, o tempo de reação é muito mais longo. se uma motocicleta, a 200 kms por hora percorre 55 metros, uma bicicleta a 15 kms por hora (velocidade média mínima num audax), percorre apenas 4,1 metros.

é… o mundo anda meio insano.

talvez esses motociclistas que procuram aos finais de semana correr riscos imenso de vida – pois é impossível supor que eles não saibam os riscos que correm, pois se têm poder de compra de veículos acima de 50 mil reais apenas para andar aos finais de semana, alguma escolaridade acima da quarta série devem ter – devem ter um estilo de vida que se pode dizer extremamente chato.

isso mesmo. pessoas frustradas nas suas realizações profissionais, nos relacionamentos, que extrapolam, dão vazão a inúmeros recalques agindo assim idiotamente.

e assim, fazendo isso, um deles matou um colega meu. o assassino motociclista morreu imediatamente, chico faleceu no hospital ao não resistir aos ferimentos, e minha amiga agora está em recuperação, física e psicológica.

sinto por todos. sinto pela minha amiga e suas lágrimas nos olhos, pelo colega morto e sua família, sua filha, e pela família do assassino motociclista, que não apenas perde um membro, mas cujos membros passarão o resto da vida lembrando que seu familiar não apenas morreu como matou outro semelhante, morrendo como homicida e suicida, simultaneamente. ou seja, alguém que trouxe vergonha à sua própria família.

uma pena mesmo.

em tempo. que quem leia esse texto não pense que odeio motociclistas. venho de uma família de motociclistas. sou sobrinho neto de um campeão brasileiro, neto e filho de corredores, bisneto de motociclista. cresci frequentando os boxes do circuito antigo – e mais longo – de interlagos. nomes como adu celso, denísio casarini, walter “tucano” barcchi, nivanor bernardi, jacaré e posteriormente seu primo, lagartixa, e mesmo figuras como paulé, fizeram parte da minha infância.

mas uma coisa meu pai, que me ensinou a pilotar uma moto quando eu tinha 13 anos mas nunca, absolutamente nunca, me deixou usar uma moto dele nas ruas, ensinou-me e não esqueço: o lugar de correr é o circuito de corridas. é o autódromo/motódromo. neles não há crianças correndo, esquinas, cruzamentos, veículos na direção contrária ou algo do tipo. meu pai, sendo um bom conhecedor de técnicas de pilotagem, passou mais de 30 anos sem tomar uma multa sequer. dirigindo carros e pilotando motocicletas com um cuidado que sempre irritava os passageiros… mas ele sempre bateu – e bate, tem 70 anos e ainda pilota motocicletas – na tecla de que correr só nas pistas. e para quem sabe.

foi ele quem me ensinou, quando eu era bem criança ainda, quem era eddy merckx e por qual motivo pneus mais finos rendem melhor no asfalto. e que, se é fácil correr de moto, muito mais difícil e desafiador é ser um bom ciclista. quando, há 12 anos, numa queda quebrei a mão tendo uma fratura exposta, foi a única pessoa de minha família que não me recriminou por pedalar naquele dia chuvoso.  pois ele sabia que eu não estava fazendo nada de criminoso. e muito menos poderia matar alguém apenas pelo prazer da velocidade. que minha vida não seria decidida por um milésimo de segundo.

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11 Respostas para “por um milésimo de segundo

  1. quando pedalo eu sinto uma paz imensa incapaz de ferir alguém…
    esse motociclista não tinha paz, acelerava e arriscava a vida dele – arriscou a dele e atingiu um ciclista que estava na maior paz, e quem vai “pagar” por isso?
    o cara morreu, o chico morreu e fica a familia do chico sofrende e a outra familia? nem aí?
    ah!…sei lá, muito injusto tudo isso
    a morte é inexplicável e assim inaceitável

  2. cara, q notícia horrível.
    mas por que não há nada a respeito? não encontrei uma nota do caso.

    Sinto pelos companheiros.
    Nas ruas e estradas, não tenho medo de assalto; basta ficar tranquilo e tudo acaba bem.
    Mas um carro, um rinoceronte bêbado, esse sim me assusta.

    • wadilson, saiu alguma coisa sim no jornal de jundiaí. mas a amiga que estava junto, por questões profissionais, prefere não se expor. além do mais, as famílias não precisam ser expostas também. respeito, tanto que nem forneci os nomes, e do chico, só o apelido: “chico”, e uma foto de costas. quem procurar os dados firmemente, vai achar. está registrada a ocorrência, o atendimento e etc. mas num domingo à tarde, com jornais com edição fechada, a tragédia foi amplamente ignorada.

  3. meus sentimentos, como é “dificil” ler um post assim, faz algum tempo que não ando diariamente de bike… mas, ja passei por alguns destes “quase”! Hj ando de motocicleta, e graças a bike e a textos assim, que me fazem refletir e dirigir melhor!!!!

  4. Poxa, bastante reflexivo (para quem pára e raciocina)! Sou ciclista, hoje temos uma agência de bike messenger aqui no RS e não por isso, mas sim por todo contexto das bicis e tal. Eu mesmo transformava-me em outra pessoa ao dirigir uma moto e por isso bani-as de minha vida, pois é um vício que corre nas veias e com freqüência tenho vontade de pilotar, ” a mil”, entretanto me conheço e sei que não posso ter, enfim, extravaso nas bicis, mas percebo que exitem muitas pessoas que possuem condições financeiras de ter uma bela moto ou belo carro e que desconhecem o poder de destruição dos mesmos, não sabendo conduzi-los com sabedoria.

  5. índependentemente de ter seguido todas as regras de tránsito, o que na minha opinião vale para todos os participantes, incluindo pedestres e ciclistas, sempre me perguntei se a autoestrada é o lugar apropriado para nos ciclistas. isto, devido a grande diferença de velocidade dos participantes do transito nestas vias. no brasil muitas vezes não existe opção, já que não existem estradas secundarias. veja como exemplo a rota marcia prado, onde não existe outra opção que pegar um pedaço da imigrantes para ir de sp a santos.

    independentemente disto tudo, também percebi uma especie de tratamento vip dos motoqueiros, que parecem poder fazer qualquer coisa não somente na cidade mas também da estrada. sem contrôle nenhum de velocidade e muitas vezes sem ter que pagar pedagio algum. quantas vezes eu vi algum motoqueiro, com a sua supermoto, espatifado na parte central da autoestrada. não entendo porque as autoridades não tomam medidas apropriadas?!

    os supermotoqueiros na estrada, parecem quase todos rebeldes sem causa, ou mad maxes frustrados, desafogando todas suas emoções a detrimento de todos. o problema é que na maior parte dos acidentes deles são involvidos terceiros que não tem nada a ver com as locuras to infratario.

    onde fica a autoruidade?! não existe outra que alertar as autoridades aos seus deveres para controlar a selva dos motoqueiros, que não seguem hoje quase nenhuma regra de tránsito.

    • “não entendo por que as autoridades não tomam medidas apropriadas”.

      Tomam: redução de IPI, por exemplo.

      Lembre que no atual estágio do capitalismo brasileiro, interessa ao Estado ampliar o uso de motorizados – apesar de todo problema que será para os usuários destes e de outras formas de transporte, antigos ou novos.

      e no atual estágio do capitalismo mundial, em que as cidades do primeiro mundo estão intencionalmente diminuindo o uso de motorizados sobre pneus dentro delas e entre elas, é preciso que a extração de mais-valia através de motorizados migre – neste caso, para o sul. Henri Lefebvre, se vivo fosse, repetiria o que já disse: o custo da alta qualidade das cidades da Europa é a baixa qualidade das cidades da África, Ásia Central e América Latina.

      Claro que é bom apontar que por lei, e idealmente, a função do Estado não é proteger o capital, e sim o trabalho ou a vida, garantir liberdade em vez de cercea-la. Mas só é bom aplicar este discurso sem idealismo: sabendo que na real o Estado é uma forma, sempre, de opressão, violência e pavimentação do caminho para o grande capital. Se se queixa do estado tendo em mente sua função real, sem idealizações, se aponta para a contradição do sistema e daí ele pode mudar; se se fala que “as autoridades deveriam proteger a vida” achando que é isso mesmo, se cai numa linearidade superficial digna de pena ou de riso.

  6. O que mais me dá desgosto é a justificativa que os motociclistas costumam dar para esse comportamento absurdo: “Eu tenho dinheiro para comprar uma moto RXZY7500, logo tenho o direito de andar à velocidade que bem entendo”. É a mesma justificativa que o cara que tem uma Ferrari ou um Camaro… na verdade, no Brasil, qq um com motor acima de 1.6 já está usando esse discurso. E, ainda é a justificativa usada pelos fanáticos de auto-som. Tenho dinheiro, comprei o bem, logo tenho o direito de usá-lo como quiser. Seja colocando a vida dos outros em risco, seja tirando a noite de sono da vizinhança com seu funk-móvel. É triste ver tanta gente com um conceito tão pobre de vida, sem noção de vida em sociedade, e tamanha falta de respeito ao próximo. A despeito da evolução econômica, o Brasil infelizmente é um país paupérrimo culturalmente. Os poucos privilegiados que tinham acesso a bens caros e perigosos sempre se gabaram de poder acelerar seus carrões, suas motos, e forçar sua música goela abaixo dos outros. Hoje essa parcela aumentou (continua pequena, mas é bem maior). E as instituições de controle (polícia, fiscais, órgãos de trânsito, engenharia urbanística), que foram moldadas para garantir o conforto daqueles poucos privilegiados, seja fechando os olhos para as infrações de pessoas de posses, sejam com políticas extremamente materialistas, hoje seguem na mesma linha. É uma arapuca que as classes dominantes no Brasil criaram para si mesmos. A pergunta é: Até quando vamos ter que conviver com essa situação caótica (falta de educação/civilidade e de fiscalização)? Termino só com a pergunta-desabafo mesmo, pois não tenho a mínima noção da resposta…

  7. Não há resposta, estamos infinitamente atrasas com relação aos conceitos de sociedade, e não me referencio em países de “1o” mundo e sim ao simples fato e olhar para o outro com semelhante, como participante de um grupo que tem direitos e deveres iguais. Viemos da escória européia e em cima desses pilares de excremento foi fundado nossa pátria, que favorece o mais abastados marginalizando os menos afortunados, e agora que o mundo vive uma expansão capitalista esses marginalizados querem ficar por cima da carne seca, afinal agora ele pode comprar um carro 1.4 turbo sporting, então ele tem direito de pisar no menos afortunado e, é nesse ciclo feudal que esse pais continua sua história. Nesse momento somos ciclistas e aos olhos da sociedade somos menos afortunados e tentam nos marginalizar por simplesmente termos opiniões e diversões fora do padrão. Fico triste toda Vez que leio uma notícia dessas. Lamentável.

    Desejo muita serenidade e paz para as famílias afetadas nessa tragédia.

  8. Enquanto o brasileiro não perceber “o outro”, vamos sofrer penalidades por sermos livres. O homem de alma livre é o maior prejudicado pelo mundo dos que compram tudo e arriscam até as vidas que não os pertencem. Nós continuaremos livres e trabalhando para uma nação como sonhamos, independente de tanta gente mal resolvida. Fé, alegria no pedal e liberdade meus amigos! Edu Abujamra

  9. Inofensiva, cheia de amor e respeito: a bicicleta…
    Nunca quis assustar ninguém, ameaçar ninguém, quero é curar… melhor n vida é fazer amor…
    Em morro em vez de matar, me machuco em vez de ferir, antes vítima que um criminoso…
    Não quero que minha vida tenha traços que possa possam deixar em dúvida meu objetivo aqui na terra: quero trazer Amor, quero trazer Vida…

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