a minha são paulo é diferente da sua

Andar de bicicleta me ofereceu a oportunidade de ver São Paulo de uma maneira diferente, mais próxima e com mais calma, quase como se eu tivesse a chance de tocar a cidade inalcançavel para quem está dentro do carro.

a frase é de milton jung, jornalista, está em seu blog, e faz parte do seu relato sobre sua participação no desafio intermodal de 2010.

escolho essa frase para abrir esse post para que percebam que o ponto de vista não é apenas meu. não estou doido sozinho. talvez eu sofra mesmo daquilo que o psiquiatra carioca marcelo chagas uma vez acusou-me: excesso de lucidez.

nunca fui exatamente um motorista. nunca. e sempre achei estranho que eu via  a cidade, ou as cidades, de forma diferente das demais pessoas com quem eu convivia, quase sempre motoristas. àquela época eu era o ser estranho. eu via coisas.

eu via as fachadas da rua florêncio de abreu. sempre gostei de ver fachadas de prédios mais antigos. eu via debaixo das ruas e calçadas o rastro dos rios enterrados.  a mim os locais de alagamento em caso de chuva forte sempre foram óbvios. aos outros não… era estranho, eu falava sozinho, era tido como doido, meio profeta: eu sabia onde iria alagar….

mas eu passei a andar de bicicleta pela cidade. ir do butantã a santo andré, no abc paulista, de bicicleta, era muito diferente de fazer o mesmo caminho de carona no carro de alguém. fiz isso pela primeira vez em 1993 ou 1994, por um pouco de inexperiência fiz parte do trajeto pela via dos carros, avenida bandeirantes e trechos da via anchieta inclusive. mas nada demais.

fiz muitos trajetos na grande são paulo usando a bicicleta, ou mesmo à pé. sempre fui muito andarilho, embora ultimamente não.

sempre gostei de viajar. já viajei muito. já houve época em que viajava tanto que malas não aguentavam, usava mochilas cargueiras de montanhismo, mais resistentes, pois necessárias. já houve  épocas em que minha nécessaire era mais completa que o armário do banheiro. ou que tenha ficado em casa apenas uma noite por semana. agora não mais.

mas incrivelmente não deixo de viajar. o conhecer do novo, do diferente, dos relevos, dos falares, das comidas e cheiros, eu faço dentro de são paulo mesmo. minha nave espacial de mochileiro intergaláctico é minha bicicleta.

a minha são paulo é profundamente diferente daquela de alguém que tem a vida correndo dentro da caixa que é um carro. jack in the box, isso não sou.

a bicicleta me fez ver são paulo diferente. ler seu relevo. ver a fachada de seus prédios. ver os locais de outra forma, achar locais escondidos ou com visitas restritas.

pela bicicleta descobri que posso comer sanduíche de mortadela do mercadão no meio da madrugada, de qualquer dia. visitei a vila maria zélia numa noite, com outros ciclistas. conheço bem, pela bicicleta, o relevo da serra da cantareira, que é quase o meu quintal. leio os erros de urbanismo de diversos bairros, seu arruamento mal feito, pelas ladeiras íngremes, desnecessárias.

eu viajo dentro de são paulo, como hoje, na bicicletada, um giro de aproximadamente 21 kms, em ritmo lento, conhecendo outras pessoas, outras bicicletas, outras formas de pedalar, outras conversas.

a minha são paulo é diferente da sua, mero motorista. um feriadão como esse que hoje se inicia não me anima a viajar, da forma desesperada de tantos. não me dá a agonia de partir, sumir, enterrar-me em outro local.

não que desgoste de outros locais. mas há sempre o novo, sempre aqui perto. passeios longos, viagens curtas, novos ares. ver o dia amanhecer numa praça ou pedalar com o sol raiando até em casa é coisa que já fiz em finais de semana ou mesmo durante a semana. a bicicleta me permite isso. ciclista que sou, ando ao largo dessa insegurança desgraçada que as pessoas bem arrumadas dentro de seus carros carregam a castigar suas almas. se me roubarem, que perco?

não há sequestro-relâmpago de ciclista. no máximo levam-me a bicicleta. temo mais os atropelamentos que os assaltos, a violência de motoristas do que de bandidos. não temo andar pelo centro velho à noite. fazemos caminhos diferentes, por ruas que só nós conhecemos. caminhos diversos.

a são paulo de quem pedala é outra. não é a são paulo dos grandes restaurantes, mas das comidinhas diferentes. dos restaurantes escondidos. das lanchonetes soberbas desconhecidas da grande maioria dos carrólatras. da feijoada que é servida da meia noite de sexta à meia noite de sábado, ininterruptamente, no mesmo local onde se pode sempre comer um sanduíche de pernil. ou de um vegetariano com um paraciclo, uma sorveteria com sorvetes sem lactose, ou tantos outros locais sempre menos conhecidos, mas não piores (mas quase sempre melhores) que aqueles com grandes estacionamentos.

olhar de ciclista é diferente. nós vemos a cidade. e vemos que ela não é ruim. não vivemos encaixotados dentro de shoppings – raramente coloco o pé num shooping center, o mesmo ocorrendo com meus amigos do pedal.

nossa relação com a cidade é outra. é mais hedonista, é mais dionisíaca, mais feliz. são paulo é uma cidade legal. mas apenas para quem tem olhos de ver, de ler seu relevo, sua história, suas idiossincrasias, suas belezas, suas fraquezas.

é, para ciclistas a cidade é diferente. há festas em praças (28 04, bike party, na praça das corujas!), música em locais diferentes, comidinhas inesperadas, beleza em todos os locais.

então, motorista…. você saiu correndo de são paulo hoje. e eu gostei da sua saída. minha cidade ficou melhor sem você. se puder, não volte.

About these ads

3 Respostas para “a minha são paulo é diferente da sua

  1. Qualquer cidade é mais ela-mesma nos modos não motorizados. A Salvador de quem anda a pé e de bicicleta é das cumeadas feitas artificialmente, grandes platôs sobre o mar, com suas eventuais abertura em belvedere – esse tecido de renda portuguesa sobre a bunda da mulata gorda., filha de oxum.

    E quem pedala sabe melhor que pedestre: nos falta mais elevadores (nosso metrô vertical), do que metrô mesmo. Porque uma vez na anca da tigra, a reconvexa se abre em palimp-incesto.

  2. Sempre me achei esquisita também… MAs vejo que só faltava encontrar a tribo da bicicleta! Lindo artigo!

  3. A man on foot, on horseback or on a bicycle will see more, feel more, enjoy more in one mile than the motorized tourists can in a hundred miles.

    -Edward Abbey, Desert Solitaire

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s