a ditadura e as bicicletas

nas primeiras horas do dia 31 de março de 1964, atravessando os planos de outros generais golpistas, o general olímpio mourão filho começou o golpe militar de 1964, consolidado de fato em 1º de abril de 1964.

vladimir herzog, morto sob tortura, com suicídio encenado (enforcado de joelhos?). a falta de investigação séria acerca de sua morte hoje causa constrangimentos ao brasil em âmbito internacional.

vladimir herzog, morto sob tortura, com suicídio encenado (enforcado de joelhos?). a falta de investigação séria acerca de sua morte hoje causa constrangimentos ao brasil em âmbito internacional.

começava ali um período de trevas no brasil, ainda não devidamente elucidado, que gera debates até hoje, tamanhas as manipulações de dados havidas no período. ainda hoje há quem acredite, sem conhecimento dos fatos históricos, que o malfadado AI-5 foi necessário para conter as guerrilhas, ignorando que o AI-5 é de 13 de dezembro de 1968 e as guerrilhas são de 1969 – o que leva a qualquer historiador sério perceber que foram uma reação ao golpe dentro do golpe, e não causa deste golpe dentro do golpe. se a reação era válida ou não, atabalhoada ou não, essa é uma discussão que vai longe. mas os fatos são esses.

mas o que isso tem a ver com bicicletas? muito!

de 1964 a 1985 os militares governaram. obviamente, levando em conta as prioridades militares. se colocamos o vigia pra gerenciar a fábrica, com certeza ela terá muros altos. mas a produção da fábrica, como será? eventualmente não podem os produtos produzidos saírem da fábrica, pois do ponto de vista da segurança é melhor não abrir os portões… assim como também não entram insumos, pois também é perigoso abrir os portões….

de fato. não tínhamos indústria de bicicleta nas décadas anteriores. caloi era importadora da bianchi. circulavam aqui phillips, görickes… depois tivemos monark, caloi… mas a qualidade nunca foi a mesma.

a indústria brasileira verticalizou-se, tamanha a restrição a importações. houve tempo em que fabricamos aqui tudo: dos pneus aos quadros, passando pelos cãmbios… os câmbios dimosil são colecionados lá fora. não pela qualidade, mas pelo exótico…. e são motivo de gozações.

mas claro, tudo estava de alguma forma sujeito aos interesses da segurança nacional. tudo. até os quadros de bicicleta.

àquela época, lá fora, avançava de sobremaneira a tecnologia da produção dos tubos de aço. o aço cromo-molibdênio, liga 4130, extremamente resistente, permitia, graças à resistência, a feitura de tubos com espessuras muito pequenas… hoje um tubo de cromo de duas espessuras normalmente tem 0,9mm de parede na parte mais larga e 0,6mm na parte menos espessa.

0,6mm é pouco mais que o dobro da espessura do alumínio de uma lata de refrigerante.

essas medidas, 0,9mm e 0,6mm são de tubos de cromo-molibdênio comuns, usados na fabricação de quadros que nem são tão leves, mas são muito fortes, usados em bicicletas de cicloturismo e mountain-bikes.

há outros tubos em outras ligas, como cromo-molibdênio-vanádio, ou mesmo o velho aço 4130, cromo-molibdênio, com outras espessuras menores e tratamentos térmicos.

mas essa tecnologia não se desenvolveu no brasil. ela se desenvolveu na europa, na américa do norte, e também na ásia, mas não aqui no brasil. joje nós babamos quando ouvimos falar de tubos columbus (europeus), reynolds (americanos e asiáticos, há uma subsidiária na ásia), tange (asiáticos), giant (sim, a fabricante de bicicletas tem sua própria siderúrgica e chegou a fazer tubos de 4 espessuras!).

mas aqui, nada! as bicicletas eram sempre feitas com o aço-carbono, menos resistente e, portanto, exigindo que os tubos do quadro tivessem espessuras bem maiores, e pesassem bem mais, sendo pouco rígidos….

isso, junto com peças feitas em aço pesado, faziam uma bicicleta de adulto aqui no brasil pesar fácil acima de 15 kg. muitas passavam de 20 kg!

mas isso pq? simples, pq era proibido fazer tubos de cromo-molibdênio aqui no brasil…

pq era proibido? pq os militares temiam que fossem usados para fazer…. armas!

sim, a neura da segurança impediu que se desenvolvesse essa tecnologia aqui.

pra quem duvida, basta lembrar que quando a peugeot veio aqui se instalar, houve um medo generalizado nas empresas brasileiras. peugeot produzia bicicletas que foram campeãs do mundo… seriam de muito melhor qualidade. mas quando a peugeot avisou que iria produzir aqui mas tendo uma diretoria de franceses que não entendiam nada da economia brasileira, a direção da caloi comemorou com fogos de artifício! e de fato, a peugeot 10 não eram absurdamente melhor que a caloi 10. eram bicicletas equivalentes. nada que se assemelhasse a uma bicicleta no padrão das bicicletas de alta qualidade. e claro, em pouco tempo a peugeot saiu daqui.

assim, competidores se viraram com peças e bicicletas importadas bem caras, isso quando dava pra importar. ainda mais que a moeda brasileira era mantida artificialmente com valor bem baixo, o que fazia com que custasse muito, mas muito, comprar uma bicicleta importada. ainda mais que era proibido às bicicletarias vendê-las!

claro, com a indústria nacional amarrada e sem importados, ficamos no atraso. por isso o espanto quando o mercado abriu e chegaram bicicletas que lá fora eram básicas, e aqui deixavam os brasileiros loucos com a qualidade. treks antelopes, specialized hardrocks, entre tantas outras, eram bicicletas básicas, mas aqui eram bicicletas de mais endinheirados. até que o dolar foi equiparado ao real, e chegaram mais baratas que bicicletas nacionais.

ficamos no atraso. lá fora, os fabricantes de tubos de aço foram os que desenvolveram as tecnologias dos tubos de alumínio, titânio e também da fibra de carbono, e. não desenvolvemos essa tecnologia no brasil.

hoje, que quadro de alta qualidade é produzido no brasil que seja feito com tubos brasileiros? temos bons quadros feitos aqui com tubos importados. muitos de fabricação artesanal. mas tubos brasileiros?

é… a neura, o medo de ver as bicicletas sendo derretidas pra virarem armas (um medo insano, seria a forma mais cara de se produzir uma arma) terminou por atrasar nossa indústria, nos condicionou a usar produtos de baixa qualidade, o que reforçou a impressão do vulgo de que bicicleta é um troço ruim, desconfortável.

quantos de nós, que pedalamos em bicicletas minimamente razoáveis, quando um amigo não pedalante nelas dá uma voltinha, não ouve ele dizer: “também, com essa bicicleta fica fácil pedalar!”

claro, ficou a impressão de que bicicleta é um produto ruim. e, sendo ruim, também não vale. por isso o espanto de alguém quando ouve que uma bicicleta custou mil reais. “o quê? mil reais numa bicicleta? que absurdo!”

pois é… preço baixo pra algo que é antes de tudo um veículo. sonham com carros de mais de cem mil reais mas acham uma bicicleta de mil reais um absurdo.

é… uma das heranças malditas da ditadura. do tempo em que os vigias gerenciaram as fábricas. levaremos décadas pra expurgar a herança maldita. ela se espalha em diverso setores, até nesse, a qualidade dos tubos de um quadro de bicicleta. lembre disso toda vez que lhe passar pela cabeça a ideia idiota de defender um regime autoritário. ditaduras não combinam com bicicletas, o símbolo da liberdade. bicicletas só combinam com democracias…

se quiser saber mais sobre a história da bicicleta no brasil, vá a esse link. e observe a importância da alfameq. mas lembre que 31 de março é um dia funesto para as bicicletas brasileiras. não há o que comemorar.

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10 Respostas para “a ditadura e as bicicletas

  1. A imagem do vigia gerenciando a fábrica é genial!

    • é a única que me ocorre. eu vivi parte desses anos. conheço bem essa neura pela segurança nacional, aquela que faz acreditar que itaipu era necessária para que, em caso de guerra com a argentina, a barragem ser aberta e inundar os hermanos… paranoia, né? ouvi isso quando estudei numa escola de militares.

  2. odir,

    a luta armada começou em 1966, com a bomba no aeroporto de guararapes/recife, que matou um jornalista e um almirante, e ferindo mais 14 pessoas. na época do AI-5, já existiam a colina (1967) o MR-8 (64), o VPR (66) e outros. a guerrilha do caparaó, por exemplo, é de 66 a 67. o araguaia começou em 67.

    esses sim é que são os fatos… (tem tudo na web, é só googlear).

    sei que vc é advogado, então, dá um pesquisada no livros de medicina legal, procurando por “enforcamento por suspensão incompleta”: isso é mais comum do que vc imagina…

    que tal um artigo mostrando a história e o panorama atual das bicicletas em cuba? sim, cuba – seria mais ou menos o destino esperado do Brasil se não houvesse aquele “golpe” (ou melhor, contra-golpe).

    eu prefiro ter o direito de escolher entre uma caloi e uma monark a tolerar um burocrata decidindo se eu devia ou não ter uma bike, depois de anos do meu pedido…

  3. não, samuel, cuba não era o destino não. a esquerda pré-64 achava o jango mole demais. na prática, quem faz os ideais da esquerda marxista-leninista cresceram são justamente os militares, pela repressão. um bom exemplo é o sirkis, do rio, só um estudante secundarista tido como liberal que até o AI-5, quando então se tem “a prova” de que a “revoluçãos eria necessária”. o brasil vivia uma legalidade razoável à época do juscelino e do jânio, mas sempre com suscessivas rebeliões militares (jacareacanga é o melhor exemplo, mas não o único). o que instabiliza muito o país é a renúncia do jânio em meio a um porre e os conservadores que não queriam que um liberal (mas não exatamente de esquerda, sendo dono de fazendas e etc) assumisse o poder. logo, faz-se o meio golpe, que é permitir que o jango tome posse só sob um parlamentarismo que paralisa o país. mas obviamente isso não se sustenta, e por plebiscito se volta ao presidencialismo. e então nós temos os vigias tramando a tomada da fábrica. e fazem aquilo que é inadmissível numa democracia: dão o golpe. dado o golpe, instala-se a ditadura, com a disputa entre os diversos grupos de militares (velhos oficiais, p. ex. castelo branco, novos oficiais, agrupados em torno do silvio frota), que chegaram a trocar tiros entre si – vide o tiroteio entre membros do sni e do ciiex quando da sucessão do geisel. não há o que justifique o golpe. a esquerda “de verdade” sempre foi anêmica e sem bases no brasil. aqui nunca houve campo e/ou espaço pra qq tipo de revolução camponesa ou proletária. aliás, a tese do foco guerrilheiro só deu certo num lugar do mundo, cuba, e pq fidel e cia tiveram apoio americano (não tinham se alinhado à URSS senão um bom temo depois de tomar o poder) pq fulgêncio batista permitia máfia limpar dinheiro nos casinos. isso tb tá amplamente disponível. che quebrou a cara na bolívia, como era de se esperar. agora, quebrar um estado de direito e derrubar um governo eleito fora da legislação é coisa que eu não admito, mesmo que o eleito seja um grande f.d.p. como o maluf. o que a linha menos dura rapidamente percebeu e a linha dura, mais jovem, e que hoje tá aí de pijama batendo palmas pra bobões como o bolsonaro nunca percebeu é que pra se conseguir uma baita reação basta endurecer qualquer regime. é só observar um exemplo totalmente externo: não houve primavera árabe no marrocos. pq? pq no marrocos, que é uma monarquia, tem até partido socialista participando de eleições… sempre foi mais ou menos assim. agora, quanto mais fechado é um regime no oriente médio, mais reação ele tem. quando fecha demais, aparecem aqueles que querem recorrer à via armada. vide que não temos isso no brasil atualmente. o que é o mr-8 hoje? nada. não caia no logro de interpretar por uma “necessidade” de uma ditadura pra afastar o fantasma de outra. quem justifica uma ditadura autoriza outro justificar outra ditadura. eu não justifico nenhuma ditadura, nem hitler, nem stalin, nem emílio médici, nem fidel castro. eu prefiro mil vezes o país de 1988 pra cá, com os militares no lugar certo: dentro dos quartéis. foi bonito ver o impeachment do collor feito dentro da legalidade e o itamar assumir. depois o FHC ganhar duas eleições. depois ver o lula ganhar duas eleições. e ver a dilma, uma mulher, sendo presidente. e todas essas sucessões com o sucedido transferindo a faixa pro sucessor. hoje, quem quer pregar luta armada em qualquer direção pode ficar com um megafone falando, e será ignorado. não somos um país perfeito, mas caminhamos pra nos tornar uma república de fato: um local onde o cidadão fala mais alto que o consumidor. seremos uma república perfeita quando a competência falar mais alto que a cor da pele, a orientação sexual, o gênero, e a herança. aí sim seremos o país do futuro que tantos aguardam. só chegaremos lá pedalando.

  4. odir, eu tenho certeza que cuba era sim o objetivo – muito embora eu acredite que nós teríamos parado numa guerra civil como a colômbia ou o peru, com uma farc ou um sendero luminoso.

    mas numa coisa eu concordo com vc: radicalismo só extrai o pior do ser humano… quando a bomba explodiu no aeroporto, a linha-dura no EB (costa e silva) se tornou uma opção real. milicos são treinados pro comfronto, não são diplomatas.

    só não concordo com a subestimação da força da esquerda no Brasil: a atuação dela ao longo do século 20, inclusive dentro dos quartéis – o “tenentismo” – foi bem marcante, mas cuidadosamente camuflada pelos historiadores, só pra citar um exemplo…

    só pra constar, não sou milico e nem estudei em CM, hehehe… mas sempre fui chato e questionador (dos milicos inclusive, mas em outros aspectos).

    grande abraço!

    • samuel, não falei de detalhes da morte do herzog, ainda. mas vale à pena entender. 1. mortes por enforcamento deixam marcas diferentes daquelas resultantes de pendurar um corpo morto pelo pescoço. 2. herzog era judeu e o judaísmo condena veementemente o suicídio, enterrando os suicidas fora do cemitério judaico comum, sem direito a homenagens e etc. 3. herzog não era envolvido em política, era um jornalista da tv cultura, estatal, e fora chamado apenas pra prestar esclarecimentos. 4. herzog não tinha nenhum sintoma suicida percebido por ninguém. 5. quando o corpo foi entregue à família, se notou nas marcas do corpo que o suicídio não seria plausível. 6. a comunidade judaica não aceitou a versão do suicídio, e enterrou o corpo no cemitério normal (dentro das regras do judaísmo se suicida ele fosse e enterrado junto com os outros, estariam profanando todo o cemitério). 7. sua morte detonou a união de 3 líderes religiosos de religiões diversas: o cardeal católico dom paulo evaristo arns, o rabino principal da congregação israelita paulista, rabino henry sobel, e o pastor presbiteriano jaime wright. esses 3 homens mereciam o prêmio nobel da paz. foram muito corajosos, reunindo fartíssima documentação acerca de desaparecidos, torturados e assassinados pelo regime. o material condensado está no livro: “brasil: nunca mais”. mais de um milhão de páginas consultadas em 707 processos do superior tribunal militar. é destes processos que saem os documentos do livro. geisel começou a abertura, e a linha dura era contra. armaram diversos atentados, como a carta bomba à OAB. alguns não deram certo, como o do riocentro. nesse caso, a bomba explodiu no colo do sargento que a carregava, ferindo o oficial que dirigia o carro. esse oficial sempre se negou a prestar qualquer declaração à imprensa, sequer pra corroborar a versão fantasiosa de que fora vítima de atentado. isso não impediu que fosse condenado pelo atentado, quando da reabertura do caso. condenado por um tribunal militar.

      • odir,

        agora sim vc argumentou. a frase usada antes na legenda da foto, sobre a qual chamei sua atenção (vladimir herzog, morto sob tortura, com suicídio encenado – enforcado de joelhos?) é bastante pobre como argumento pra quem conhece criminalística – daí eu ser tão radicalmente contra o seu uso.

        eu acredito que ele tenha morrido enforcado mesmo… não necessariamente suicídio, que fique bem claro. note a protusão da língua e o edema avermelhado da face dele (que na foto BW aparece mais escuro), isso só ocorre quando a vítima é pendurada no laço ainda viva…

        essa informações relativas à marcas no corpo foram obtidas através de relatos de quem o observou ou de documentos fotográficos?
        pergunto isso porque manchas de hipostase impressionam muito…

        um torturador que mata a vítima é um péssimo torturador: os “bons” são os que nem marcas deixam… lembra dos afogamentos simulados dos americanos (water boarding)? pois é… e se fosse o caso de matá-lo, era só simular um latrocínio, num local distante e sem levantar toda essa suspeita contra o dops.

        essa tese do homicídio disfarçado de suicídio é, pelo menos pra mim, tão ilógica quanto a do suicídio pra vc…

        abração!

  5. Dizem que blogs e fóruns só servem para aproximar ou mostrar algo, mas hoje com toda esta leitura e indo ao link aprendi muito sobre a história da bicicleta no brasil e o caminho manipulado que sofreu.

    Obrigado a todos pelas informações!

  6. Eu não tinha noção disso. Valeu

  7. o melhor texto que já li a respeito.

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