bin laden, bush e a bicicleta

passados 10 anos dos atentados de 11 de setembro, nos e.u.a., o mundo aprendeu a prestar atenção na indústria do petróleo.

bicicleta nos escombros do world trade center

sejamos claros. a maior democracia do mundo  passou décadas com uma política externa na qual apoiou regimes fechados e altamente autoritários. essa política foi movida por interesses internos. sim, um campo das relações internacionais trabalha com a teoria dos interesses.

não sejamos inocentes. a moralidade do estado não é a moralidade religiosa, conforme já nos ensinou maquiavel ao publicar “o príncipe” em 1513, já parcialmente antecedido por marcílio de pádua no “defensor pacis”, publicado em 1324. estado soberano segue seus próprios interesses. marcílio, um clérigo, negava a influência de bispos e papa na gestão do estado.

ninguém nega esse aspecto das relações inernacionais. afinal, este não é o mundo dos ursinhos carinhosos.

interesses nacionais que são em grande parte movidos pelas necessidades internas. um país, por exemplo, busca manter suas fontes de alimentos e de energia. não se vive sem essas coisas. e, ao isso fazer, muitas vezes causa problemas a outros países. assim ocorre com países que disputam fontes de água (essa é a rela questão entre israel e síria acerca das colinas de golã, onde estão as nascentes do rio jordão).

e.u.a. e europa (e agora a china) são extremamente dependentes do petróleo. petróleo que não apenas é combustível para carrões, mas produz energia (pelas usinas termo-elétricas) e também é insumo para a indústria de materiais plásticos.

mas os grandes produtores de petróleo não são seus maores consumidores. a europa ocidental (europa do oeste) por exemplo usa muito petróleo e gás da rússia e de países da antiga u.r.s.s., do leste: cazaquistão, uzbequistão…

o oriente médio teve suas fronteiras talhadas por potências emergentes da I guerra, no tratado de versailles em 1919. populações antes inimigas forma mantidas dentro das mesmas fronteiras. protetorados (na verdade, cangalhas) foram implantados sobre as populações árabes e bérberes, e tb persas, pashtanes e etc.

park row em nova york, em 11 de setembro de 2001 e junho de 2006. amy sancetta/ap photos

durante a II guerra as potências que emergem são outras. mas a necessidade de petróleo não. aliás, é a necessidade de petróleo que fez, durante a II guerra, a alemanha nazista desgastar-se em determinados teatros de guerra, como o front russo e o norte da áfrica. a então u.r.s.s., como ainda hoje a rússia, tem a maior produção de petróleo da europa. o norte da áfrica é o caminho para o controle do oriente médio, onde estão as maiores reservas de petróleo do mundo. mas a alemanha nazista nunca chegou nem perto de alcançar seus objetivos nesses dois fronts da guerra.

ciclista em n.y., 11 de setembro de 2011 - alex webb/magnum photos

terminada a guerra, e.u.a. e u.r.s.s. desgastam-se na guerra fria, mas nunca deixaram de cuidar do petróleo. armamento americano e russo se confrontaram de fato nas guerras do oriente médio, sejam as guerras israelenses (1947/48, 1956, 1967, 1973, 1982), seja a guerra irã-iraque (1980/88).

soldados iranianos brincam com bicicleta, durante a guerra irã-iraque

ditadores em diversos países do norte da áfrica e do oriente médio e mais adiante (persas no irã, paquistaneses, afegãos…) foram apoiados por uma ou outra das duas grandes potências da guerra fria. e claro, apoiado por uma potência, o ditador enfrentava a oposição dos insurgentes apoiados pela outra superpotência.

assim, no afeganistão com governo pró-soviético a guerrilha islâmica – ou melhor, as guerrilhas islâmicas – ganhou apoio e treinamento dos e.u.a.

bicicletaria em cabul

lembremos que no filme rambo III os guerrilheiros taleban são chamados de guerreiros da liberdade, lutando contra o monstro soviético…

as relações internacionais são complexas demais para conseguirmos entendê-las todas e estabelecer escolhas morais. é fato. acabamos por ver apenas traços em comum.

garoto palestino foge de gás lacrimogênio, em 2002, ramallah. foto: osama silwadi.

o senso comum identifica a necessidade de petróleo como pano de fundo de diversas guerras e conflitos. ouvimos isso nas ruas. aqui e em qualquer lugar do mundo. é fato que grande parte da população não quer saber de guerra, mas apenas de tocar sua vida com sossego. isso vale para a dona de casa de um campo de refugiados em ramallah ou pra dona de casa de um bairro residencial de tel aviv ou haifa.

menino afegão, em cabul.

mas o atentado de 11 de setembro, orquestrado por um antigo financiado pelos e.u.a., gerou uma reação com invasão ao afeganistão e ao atoleiro iraquiano. trouxe de volta como amigo dos e.u.a., um antigo inimigo, khadafi.

gerou uma rearrumação dos gastos americanos. essas guerras custosas mergulharam os e.u.a. na crise econômica. também endureceu regimes ditatoriais no oriente médio e norte da áfrica. gerou reações entre muçulmanos acerca do próprio fundamentalismo islâmico. só os desinformados estão surpresos com o caráter laico da primavera árabe. o povo vai as ruas para derrubar ditaduras, e não para substituí-las por por teocracias. elas estão também sendo contestadas.

rebelde palestino

no interior do “império” a coisa também mudou. americanos e europeus comuns, gente do povo, recusou-se a participar da carnificina mundial.

muitos passaram a usar mais a bicicleta como forma de dizer: “eu não participo disso. o seu filho que morreu no iraque não morreu para sustentar meu consumo de petróleo”.

os anos 2000 fazem renascer a bicicleta urbana, esquecida nos anos 80 e 90, com a explosão do mountain-biking.

folheto da polícia de n. york, de 2004, tentado criminalizar a massa crítica.

e as políticas de segurança de algumas cidades entraram em choque com a bicicleta. é fato que todos sabemos que existem carros-bomba. mas “bicicleta-bomba” é gíria apenas pra designar uma bicicleta de muito baixa qualidade…

houve quem passou a usar a bicicleta como transporte até para fugir dos controles das neuras póso-atentado, seja em nova york, seja em cidades européias.

o aumento do uso das bicicletas em nova york no início dos 2000 que em 2004 e 2005 as massas críticas locais passaram a ser vigiadas pela polícia. houveram conflitos com a polícia local. no vídeo abaixo vemos a agressão de um policial nova-iorquino em 2008. inicialmente o ciclista foi acusado de resistir à prisão, de estar usando maconha, entre outras acusações falsas. até que apareceu esse vídeo e desmascarou a ação criminosa da polícia.

e isso gerou toda uma discussão acerca de direitos políticos, direitos de cidadania, direitos humanos. no ambiente nova-iorquino isso é matéria de livros de sociólogos, antropólogos, até hoje. pelo menos um documentário foi produzido, “still we ride”, que pode ser visto na íntegra abaixo:

das antigas manifestações anti-alca, anti-fmi, anti-fórum econômico mundial, talvez por uma consciência mais desenvolvida, saíram muitos dos militantes pelo uso da bicicleta em grandes cidades do mundo. é uma progressão natural.

o senso comum já percebeu isso. entre não ciclistas, a opinião sobre quem usa a bicicleta como meio de transporte é: ele ou ela vai sem poluir.

europeus, depois do atentado de maio de 2004 em madrid, e depois em julho de 2005 em londres, em sistemas de trem e metrô, respetivamente, tirou a confiança da população nesses meios de transporte.

muitos passaram a simplesmente usar a bicicleta. ainda mais depois do engano da scotland yard no caso jean charles.

no imaginário da população das grandes cidades americanas e européias, a bicicleta e o ciclista parecem pertencer a um outro mundo que não é gerido pela economia do petróleo. houve uma santificação do ciclista e da bicicleta.

e ciclistas souberam utilizar-se disso. ciclo-ativistas de nova york aproveitaram isso em 2004 e 2005 para questionar o controle policialesco sobre a população, a ponto de ferir os direitos individuais. foram essenciais para conter os abusos das forças policiais na cidade.

todo ciclista urbano intimamente diz: “eu não participo disso. eu não sou responsável por essas mortes”.

se isso é verdade ou não, é outra questão. mas é a ideia, e a sensação. e pessoas são movidas por isso.

some-se a isso o que vem de brinde, que é o prazer de pedalar. é fato, só quem pedala sabe que é uma excelente forma de  colocar diversão entre as pernas sem nem de leve gerar algum risco de se parar num processo judicial acerca de investigação de paternidade….

é fato, pedalar, mesmo no trânsito, depois que a gente aprende a fazer, é muito legal. depois que percebemos isso não queremos voltar aos carros.

bom, sabemos o suficiente sobre o islã para saber que bin ladem não o representa. assim como anders behring breivik, que perpetrou aquele horrível atentado em julho desse ano na noruega não representa o cristianismo. bin ladem é uma vergonha para todos os muçulmanos que conheço. sem exceção.

mas os esclarecidos perceberam como a dependência do petróleo pode fazer um país tomar decisões nas relações internacionais que podem gerar sofrimento alheio que gera ódio gerações adiante. percebemos também que estamos superando a economia do petróleo, aos poucos, lentamente, mas estamos.

o antigo império americano, aquele da era bush, desapareceu. quebrou. estamos aos poucos construindo uma nova ordem pós-americana, ou melhor, pós império americano.

novas formas de relação entre o cidadão e a cidade se colocaram. não queremos viver num mundo em pânico, mas em paz. e aí a bicicleta surge, de forma simbólica, como alternativa.

hoje, a bicicleta cresce muito mais como símbolo do que seu uso real. basta ver a publicidade, onde a figura de uma bicicleta parada ou em uso sempre aparece para dar uma sensação de paz. até nas publicidades de carros!

a imagem de uma mulher pedalando é a grande sinalizadora de que há paz e sossego naquele ambiente. gostamos dessa imagem simbólica. e essa imagem, ainda um tanto rara no mundo real das cidades brasileiras, começa aos poucos tornar mais comum. aos poucos.

bin ladem é filho e produto da economia mundial do petróleo. e os atentados de 11 de setembro são talvez a última convulsão dessa economia que está em morte lenta. enquanto morre, uma outra economia, de baixo carbono, está sendo gerada. e nela a bicicleta se inclui.

no futuro as cidades serão outras, os meios de transporte também. não há espaço para se usar uma tonelada de materiais para se fazer um veículo para transportar uma pessoa ou duas. com tantas desgraças (atentados, ou mesmo terremotos, como o ocorrido no japão esse ano, enchentes), no final só pedestres e ciclistas se locomovem. e só os ciclistas vão mais longe.

por isso tudo é que o mundo pós 11 de setembro acabou, por uma lógica irônica, por favorecer o uso da bicicleta. bush e bin ladem, duas faces do mundo do petróleo, mostrando sua face negra, nos fazem fugir desse mundo. fugiremos pedalando.

pedalemos, pois.

About these ads

4 Respostas para “bin laden, bush e a bicicleta

  1. e pensar que Italo Calvino previu tudo.

    Você seguramente já leu as 6 Propostas Para O Próximo Milênio, que na verdade são 5, né?

  2. na verdade, os pós-modernos italianos que criticam a pós-modernidade, perceberam isso antes. Penso também em Umberto Eco (mas não excluo nem Agamben nem Negri, estes contudo em outra direção) quando diz que “vivemos a era das evoluções tecnológicas de caranguejo: cada nova latusa provoca deslocamentos para os lados ou, às vezes, para trás – jamais para frente, diferente do que temos visto do Renascimento até o Modernismo”.

    Na base de todos (inclusive de Foucault), este grande conservador que era Jorge-Luís Borges.

    • outro exemplo: depois do tropeço anunciado que foi o Cinema se aproximar do Video-Game, via 3D, para voltar a enxer as salas, eis que Peter Jackson resolve adotar para O Hobbit uma tecnologia melhor, mais barata, irreprodutível na TV (e já há TVs de 3D), e bem anterior: bitola de 75mm com 48qps (o padrão fílmico é 32mm 24qps), que transforma a tela numa janela cheia de profundidade para dentro.

      Na era do digital que “barateia a distribuição do filme” (o que é falso, uma vez que não faz o preço do ingresso cair nem o aproxima pedestremente do cidadão – os cinemas que fazem isso, como a SalaDeArte em Salvador e Estação no Rio, fogem do digital como o cão da cruz! – e geram pirataria), eis que um blockbuster (embora autoral) será feito em película polaroide! – e mais: usando a mesma técnica que o anti-tecnologista Jacques Tati usou em seu excelente PlayTime.

      Signo dos tempos. Galileu mandou lê-los…

  3. O rebelde palestino da foto é líbio, só pra constar ;) .

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s