tour de france, 1ª etapa, ou nada é previsível no esporte!

o que é o esporte? para muitos, só negócio. para outros, mero entretenimento. mas para quem vê, é a reprodução dos dramas humanos.

desde as antigas olimpíadas gregas o drama, a tragédia, a epopéia e o lirismo fazem parte do esporte, essa prática humana tão… estranha e fascinante, complexa.

philippe gilbert, campeão belga, vencendo a 1ª etapa do Tour de France 2011

quem são os prós do esporte? meros entertainers? ou reprodutores nos palcos e nas telas do drama da existência humana?

o trágico na existência é o acidental, o acaso, o imponderável que derruba todos nossos planos. e hoje foi isso que vimos no tour de france, logo na primeira etapa.

em sua grande parte a etapa foi sononolenta e burocrática. a fuga foi mantida numa distância confortável do pelotão, que a engoliu com cerca de 20 kms do final. mas foi nesses últimos 20 kms a corrida muda. tombos, uma chegada em subida, as quebras no pelotão e todas as expectativas vão ao espaço. a única coisa que se esperava que acontecesse aconteceu: philippe monstro gilbert, o melhor ciclista de clássicas da atualidade, o monstro que levou 4 mais importantes clássicas de primavera em 2011 levou a etapa que parecia talhada para seu perfil, com essa subidinha no final que não é suficiente para fazer os montanhistas brilharem mas é suficiente para quebrar os passistas mais puros, como fabian cancellara.

mas a disputa não resume-se à etapa, afinal, ela é apenas a primeira de 22 etapas daquela que é a terceira maior competição do mundo, o tour de france, que perde apenas para duas outras competições que acontecem a cada quatro anos: a copa do mundo de futebol e as olimpíadas. pois o tour de france é anual, a mais importante das competições esportivas anuais.

numa competição por etapa os tempos são somados e quem tem a menor soma total ganha. com etapas de alta montanha à frente, sabemos que bons montanhistas ainda têm muita chance.

nesse ano de 2011 os grandes favoritos são o jovem andy schleck e o fortíssimo alberto contador, el pistolero.

andy schleck é um grande ciclista e tem um gregário de luxo, seu irmão frank schleck. jovem, bom nas montanhas, sofrível nos contra-relógios, para muitos ainda não mostrou a que veio, e para outros é uma grande promessa para o futuro, que ainda teima em não chegar.

el pistolero é mais velho, mais experiente, já carregando no currículo vitórias no tour de france, na vuelta de españa, no giro d’italia (aliás, inclusive em 2011, numa atuação brilhante). para alguns, alguém que possa igualar eddy merckxs nas vitórias nos grandes tours, para outros, um antipático, por ter tido que ser muito firme em 2009 dentro da equipe astana, com o então recém chegado lance armstrong (recém saído da primeira aposentadoria) e que assediava seu posto de capitão da equipe.

em 2010 alberto contador atacou mais ou menos no mesmo momento em que andy schleck fazia uma manezada na troca de marchas que lhe fez cair a corrente. não tenho medo de afirmar que foi manezada, pois já fiz o mesmo em diversas situações. mudar da coroa grande pra pequena, na pedivela, quando a corrente está nos pinhões maiores do cassete muda repentinamente a tensão da mola do câmbio traseiro e a corrente salta. coisa de pica-pau, o que se espera de um amador bocó como eu, mas não de um profissional pro tour (a bike dele esse ano está com uma peça que impede que isso ocorra). nessa manezada, andy schleck perdeu a camisa amarela, e logo muitos apontaram uma falta de fair play de alberto contador que teria atacado quando o líder está com problemas mecânicos. essa regra existe no pelotão, mas não era o caso ali.

logo depois contador começou a responder a um processo por doping, por restos de clenbuterol achado em seu sangue. acusou um bife pela contaminção (mínima), ainda está sendo jugado, tornou-se vegetariano.

nesse ano venceu o giro d’italia de forma soberba. incontestável nas montanhas, sendo gentil e usando de muito fair play com todos aqueles que de alguma forma o ajudaram. é inesquecível a forma como deixou uma vitória nas mãos do pequeno rujano, nos últimos metros.

mas e hoje? onde está o aspecto dramático e trágico? no imponerável.

um gregário da equipe astana sai um pouquinho da estrada, esbarra num camera-man, cai e derruba muita gente, deixando dois terços do pelotão preso ali. à frente do tombo, com chance de ganhar tempo, os irmãos schleck, e cadel evans, também eterna promessa ainda não realizada.

mas alberto contador estava atrás. sua equipe desespera-se para tirar a diferença. mas um segundo tombo os atrasa. e a tragédia na etapa se lhe consolida:chega a 1:20 min do líder, quanto o tempo de a. schleck é de apenas 06 s. do líder e cadel evans com apenas 3 s. do líder.

etapa trágica para alberto contador, mas como na vida, salvo no caso de morte, a tragédia de hoje é só início do drama que se lhe segue. amanhã dependerá do desempenho da equipe para diminuir essa desvantagem. nas etapas seguintes terá que lutar para sempre estar entre os primeiros, e nas etapas de montanha atacará, a não ser que jogue a toalha. mas o drama é longo, ainda faltam 21 etapas.

amanhã larga usando a camisa amarela p. gilbert. não sabemos se a manterá. outros nomes podem usá-la. a partir da semana que vem o drama se aperta. o que nos espera? aguardem os próximos capítulos.

e a bicicleta segue nos fornecendo grandes metáforas sobre a vida. como dizia albert einstein, é preciso manter-se em movimento para não perder o equilíbrio, como na vida. mas quantas vezes os tombos alheios podem nos derrubar ou fazermos perder muito tempo? mas um dia termina e outro começa. levantemos e pedalemos pois.

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2 Respostas para “tour de france, 1ª etapa, ou nada é previsível no esporte!

  1. Se fizer um resumo desse por dia sobre o Tour de France, estará fazendo um bem para o ciclismo brasileiro.

    Aliás na minha opinião, a diferença entre um Audax, um Tour, uma Cicloviagem e uma pedalada para o trabalho é só contra quem competimos.

    Em todos os casos há alguma competição, seja contra um adversário, seja contra seus limites físicos, emocionais ou mesmo com aquele colega de trabalho que vai de carro.

    A competição só é ruim quando cega o ser humano e faz com que, para a sua conquista, a pessoa seja capaz de tudo, até prejudicar outra pessoa ou a si. Fora isso é exatamente o que você disse, reflete dramas de nossas vidas.

    Abraços e parabéns pelo texto.

  2. Pra mim o Shurek ainda não mostrou a que veio e já é promessa véia. Esse tour, depois de tanta cagada, é a grande chance dele calar minha boca.

    Muito bom o post. Faço coro ao bicicretero: escreva todos os dias!

    Abraço.

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