audax 600, alegria e frustração

eu cheguei ao audax 600 kms. pela segunda vez, bati na trave. desta vez, derrotado por outros, não por mim. aí reside a frustração. a frustração pela agressão sofrida gratuitamente, apenas por estar ali, apenas por existir.

estreei bicicleta nova. uma nova bicicleta velha para meu uso. minha primeira bicicleta de titânio, uma litespeed natchez 1997, com geometria adequada a longas distâncias. garfo colnago force em fibra de carbono. full dura ace, até o canote, misturando peças 7400 a 7700, ou seja, nada das últimas versões dura ace da shimano, 7800 e 7900. o dinheiro não dá pra isso ainda. e se hoje tenho uma bicicleta de titânio equipada com peças de qualidade devo à generosidade do roberto, que a vendeu a mim por um preço baixo. ele sabe que não sou abastado, professor em país de terceiro mundo nunca é rico… conhecimento não é coisa valorizada no brasil. mas o roberto fez um precinho bem camarada, e se um dia ele fizer um preço camarada nas outras que tem (até a mtb), compro todas… hehehehe, é tudo do meu tamanho, é só levantar o selim…. mas as bikes do roberto serão objeto de outro post.

mas fui ao holambra para completar o percurso. fomos de carro, valdson, eu, sílvia, silas. destes quatro, apenas o silas brevetou. valdson e sílvia foram moídos pelo percurso e pelas bikes mais pesadas – em percursos montanhosos como os dos audaxes de são paulo peso faz diferença. marchas mais curtas também, mas a favor.

fizemos o primeiro trecho de holambra a casa branca, ida e volta, em tempo bom. fiz em menos de 11 horas os 204,8 kms desse trecho. deu pra parar no PC2, o mesmo da saída, embaixo do hotel onde ficamos, e tomar um rápido banho e trocar de roupa. e claro, comer algo também, almoçar. cheguei ao pc3 (280,2 kms) em rio claro às 20:47 – portanto com 16 :47 de pedalada.  mas apenas às 3:06 da manhã, portanto 23:06 após a largada, cheguei ao pc4, com 355 kms de pedal. o que me segurou?

um pouco o sono, e depois, em muito, a violência. explico mais adiante.

a organização foi perfeita. somos mimados, nos pcs à noite tínhamos até sopinhas… em todos o carinho dos voluntários, todos meus amigos. o percurso é duro, cheio de morros, mas em estradas de boa e razoável qualidade de asfalto no acostamento, muito melhor do que algumas estradas pelas quais já pedalei.

não tive nenhum pneu furando nos míseros 355 kms pedalados. acho que desta vez acertei a escolha dos pneus: specialized armadillo all conditions, não é leve, mas é ultra resistente. há sujeira nos acostamentos das estradas paulistas, caminhões e carros soltam pedaços de pneus, arames, pregos….

mas havia algo com a qual não contávamos. a imbecilidade do brasileiro deseducado, egoísta, irresponsável. na ida da segunda perna,no trecho entre holambra e rio claro, uma pedra voou no meu peito. achei que era uma pedra levantada pela roda da sílvia. mas achei esquisito – depois soube que nesse trecho alguém jogava pedras nos ciclistas. acho que tomei uma das pedradas ali. mas não me machucou.

na volta, já a madrugada avançando, deixei a silvia avançar numa subida – a bike mais pesada, mas as relações mais curtas permitiam ela subir rápido, eterna vantagem de muitas MTBs sobre speeds com pedivelas grandes com coroas de 53 e 39 dentes – e a perdi de vista. o sono pesou, cheguei a parar num pedágio e dormir deitado numa calçada. dormi por cerca de meia hora, o que me fez muito bem, saí pedalando rápido depois disso.

passavam carros. havia gente bêbada neles. soubemos depois que havia festas em algumas chácaras da região. gente passava de carro gritando…

numa subida onde eu pedalava bem devagar um carro aproximou-se, mas não dei muita bola. bem perto a mim, o grito do passageiro na minha orelha – e acho que um tapa também, não tenho certeza – e lá vou eu para o chão. um tombo seco, para o lado, a mão esticada como reflexo. a bicicleta sobre mim. ainda no chão, alguém gritou do carro: “aê, se fudeu!”

arranhão nenhum, mas contusões, internas, sim. ombro, mão, joelho, pé. tudo do lado direito. depois, também dor na articulação da perna como quadril…  levantei-me, subi na bike e pedalei 20 kms  bem doloridos, longos, muito longos. tava muito difícil trocar as marchas, me doía muito o ombro a cada troca – e eu tinha que trocar o tempo todo, pra aliviar sempre o peso do pedal sobre o joelho dolorido. mas não pedi o resgate, para não abandonar a prova – esperava poder continuar. cheguei ao pc4, tomei um banho quente, tomei uma dose cavalar de anti-inflamatório, dormi cerca de uma hora e nada, nem tchuns, a dor só aumentando a cada vez que mexia o corpo. comuniquei meu abandono à direção da prova.

dormi, com pesadelos. passei o domingo remoendo a frustração. sabia que não havia quebrado nada, mas tudo dolorido. melhorei no decorrer do dia. os amigos me deram muito apoio. hoje, agora, nesse momento, nem manco mais. o ombro ainda dói um pouco, mas passará rápido.

mas ainda penso que escapei de ter sido atropelado de propósito, ter sido morto por sádicos, ou coisa parecida. num país onde espancam homossexuais na avenida mais famosa da maior cidade da américa latina, onde mulheres e crianças são espancadas dentro de casa, onde em pleno século XXI se encontra trabalho escravo, o que é sofrer lesão corporal dolosa (artigo 129 do código penal) pela “brincadeira” feita por alguns imbecis?

fica o gosto amargo na boca.

bom, sobre a organização, que dizer? excelente, como sempre, atenciosa e cuidadosa. mas claro, não tem como evitar o que aconteceu comigo. não há mágica possível nesse sentido. a organização foi impecável nos mínimos detalhes, só tenho elogios, inclusive a todos os voluntários, que não dormiram direito, que correram de um lado para outro, que fizeram sopinhas pra nós, deram frutinhas, lanchinhos, água, gatorade à vontade. somos mimados, claro.

mas já foi. vou levantar uma grana e completo a série com o audax 600 do rio grande do sul, talvez com pedivela compacto (quem tem um dura ace compacto octalink disponível por aí?). amanhã, terça, volto a pedalar, de um jeito ou de outro. tenho que manter a fama de ogro…

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24 Respostas para “audax 600, alegria e frustração

  1. que merda isso, odir, puta negócio imbecil que te aconteceu. dá pra imaginar a frustração..

    • pois é, pode acrescentar essa info ao final do vídeo que vcs tão tentando editar… fazer audaxes aqui no brasil é pior do que parece, às vezes. altimetria não é o pior problema….

  2. As vezes sinto vergonha de ser brasileiro, noutras sinto vergonha de dirigir. Não sei qual é maior agora.

  3. Pois é, nosso (de nós brasileiros) maior problema e nossa maior qualidade é cultural. É triste como agimos no trânsito, em todos os lugares, na cidade e nas estradas, somos irresponsáveis e infantis. Triste.

    • marcus, isso foi uma exceção. nos audaxes sempre somos muito bem recebidos pela população. mas naquele trecho muita gente teve problemas, e foi só dessa vez, pq outras vezes se passou por ali sem problema algum. foi episódico. havia umas festas nas chácaras da região, e a turma encheu a lata e saiu dirigindo. a grande questão é álcool e direção, com certeza.

  4. oi odir,

    chato, muito chato. dura ace compacto velho não existe, somente apareceu com a nova serie 7900. sei porque fui atrás. tem o no series R700, já com movimento central compacto. deixa ver o que da para fazer. nos falamos.

    abraços e boa melhora, por sorte estamos vivos e os danos não foram permanentes.

    • claro, estamos todos vivos, e inteiros. eu já volto a pedalar hoje, richard, a recuperação minha é bem rápida, e os amigos maldosos já me apelidaram de “wolverine obeso”. hehehe. vou mudar as marchas da bike pro audax do rio grande do sul, vou fazer o 600 lá. uso cassete 12-27, e com 50-34 as subidas ficam mais leves… hehehe

  5. Odir, ainda há muito à ser feito pra vivermos numa sociedade justa, tolerante, onde o mais importante é o ser humano e o respeito à natureza. Temo não viver esse tempo, apesar de achar que uma nova geração está por vir com muita coisa boa…

    PS: no 3º parágrafo de baixo para cima onde está século XIX seria século XXI, não seria?

    Abraço

  6. O problema também no Brasil é a falta de educação aliado a grande impunidade.
    A lei seca no transito não funcionou , pois tem uma brecha na lei que não obriga ao motorista sopra o bafômetro . No fim de semana um motorista com cara de bêbado quase me atropela na minha bike, em pleno sol das 3 da tarde.
    Se alguém filmasse ou fotografasse esse ato de covardia que aconteceu com você , mesmo assim essa pessoa ficaria livre de punição.
    Podíamos mudar o nome de quem dirige alcoolizado de motorista para criminosos irresponsáveis.

    Melhoras e boa nova prova ….

  7. oi odir!
    q merda isso q aconteceu… lastimável!
    caso haja, não da pra pedir imagens das câmeras da rodovia e tentar identificar os criminosos?
    melhoras…
    abraço
    paulo snoopy

  8. Lamentável o ocorrido. Lamentável também essa mania de caracterizar esse tipo de comportamento como algo próprio do brasileiro. E só do brasileiro, como se em nenhum outro lugar do mundo esse tipo de coisa acontecesse. Que tal dizer que é coisa de paulista? Meus votos de melhoras para a vítima. Votos também de que o desgraçado do agressor encontre logo a morte e deixe um mundo melhor para trás.

    • roberto, sim, ocorre em outros locais, mas aqui com mais frequência. quem diz isso não sou eu ou os leitores do blog, é roberto da matta, no “fé em deus e pé na tábua”. é típico de sociedades não estruturadas sobre valores diversos que os valores da posse. onde quem tem mais vale mais, esse comportamento é comum. e sim, é comum no interior de são paulo, é sim de paulista, hoje o mais misturado cidadão do brasil, o mais predador, o mais prepotente, ou seja, a melhor representação da herança colonial e escravagista. mas é pena que não seja exclusivo do paulista, pois agressões de bêbados a ciclistas acontecem diariamente em diversos cantos do brasil, de norte a sul. mas sinceramente, eu que fui o derrubado, agradeço não ter sido atropelado. poderia ser pior, e estou vivo e me recuperando bem. poderia ter sido muuuuuito pior.

  9. Cara, agora é que me dei conta de que você é o Ogum do pedal.com.br!

  10. Pingback: A violência do medo « Outras Vias

  11. nos estamos tato atento mas acontece entregue na nau de deus eles vão paga lana frente me rolha para amigo.

  12. infelizmente temos que dividir o mundo com gente tão estúpida. nesta questão da insanidade dos motoristas, tenho a impressão que não dá pra dizer se o motorista de são paulo ou de qualquer estado é pior ou melhor que os outros. por exemplo, acho que nunca fui tão desrespeitado quanto fui nesse final de semana no percurso do audax 600 do rio, com largada em rio das ostras. já na chegada a rio das ostras eu e a silvia fomos ameaçados por um motorista de ônibus da 1001. na cidade de rio das ostras fui pressionado, fechado e levei finas inúmeras vezes. na região de cabo frio, aconteceu o mesmo incidente duas vezes, em dois diferentes lugares: o carro que estava me passando pela esquerda em via completamente vazia de repente fez uma manobra brusca jogando o carro pra cima de mim, a ponto de provocar que eu fizesse uma manobra brusca no susto para fugir do caro. achei curioso porque não me lembro de já ter acontecido na minha vida algo assim, da forma como foram essas 2 ameaças, e de repente acontece de forma muito parecida 2 vezes em uma mesma região, em um mesmo dia. parecia que era algum tipo de esporte da região.

  13. Pingback: os nus e os mortos | as bicicletas

  14. Pingback: os meus 300 | as bicicletas

  15. Não esquenta, vou fazer o Audax Floripa 600 sábado será pela superação minha e por ti também.

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